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Mostrando postagens de Janeiro, 2010

O frio silencioso delira.

Quando nem o mínimo vestígio de sono domina o meu metabolismo selvagem, prefiro não ir me deitar. Forçar o sono é como comer de barriga cheia. É impor que o corpo se aquiete e que os pensamentos encontrem uma garagem vazia onde possam se acomodar. É ressuscitar lembranças enquanto se deixa envolver pelos panos mornos da cama. É buscar um jeito confortável de ficar, como se assim o sossego fosse fazer morada. São nessas noites de insônia que construo minhas esperanças. Na imaginação, o mundo vira de cabeça pra baixo sem deixar nada cair. Bebi um copo d'água encostada na pia da cozinha. Lembrei de quando era criança e tinha muito medo de ir até a cozinha. Crianças imaginam tanto que acabam vendo dragões em sombras de árvores. Serão mesmo árvores? Prefiro não duvidar de tudo que as crianças dizem. Por terem ainda a mente aberta, livre das infinitas restrições que assolam as idades dos adultos, conseguem ver além da primeira impressão. Na pressa de hoje, as pessoas dão uma olhadinha …

Por favor, meu óculos não!

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meu chamativo enfeite de rosto .
Ainda me restavam alguns defeitos nos olhos que me permitiam usar óculos por motivos de saúde. Hoje, depois de esperar duas horas lendo revistas do ano passado numa clínica especifíca para problemas de visão, a médica veio me dizer o que eu menos esperava: -Querida, você está forçando a sua visão com esse óculos. Ah, ótimo. Acordei três dias seguidos com dor de cabeça, tendo a sensação de que meus olhos estavam sendo chutados e me acostumando com o possível aumento das mazelas oculares, ela chega na maior e me diz isso?
Depois da notícia, só me restou encher de perguntas aquela médica com jeito de surfista hippie, na tentativa de convencê-la que eu tinha que usar óculos. Estou começando a me convencer que meu destino ocular foi escrito com caneta permanente e está tão, mas tão bem escrito que até as pessoas mais esperançosas dirão que é mais fácil renascer com outros olhos do que esperar que as menores letrinhas não sejam lidas. A médica colocou um apare…

meu céu de cada dia

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Pra ti, céu, eu olho Em ti, céu, vejo que existe mais do que tudo isso.

arriscou em mim

Eu me rendo. Nunca me permiti saber o que aconteceria depois que você chegasse mais perto. Você chegou lento. Muito lento. Demorei para notar que você estava ao meu lado. Sempre, tudo foi tão distante. Quando pela primeira vez encostei minha cabeça no seu peito, num jeito acolhedor, não sei o que senti. É não sei. Você nem deve ter notado, tudo continuou parecendo tão normal. Até que você se arriscou em mim. Arriscou-se quando estava mais desatenta. Continuei sem saber o que sentia. Era como se o que pulsa em mim estivesse se moldando ao momento. Tudo estava saindo do ritmo constante que há tempos me movia. Senti sua mão abraçando o meu braço, ouvi a sua respiração falando no meu rosto e falei sem palavras o que queria dizer. Então, nos entendemos.

arma-dura, alma-dura

há dias que a alma pede um toque. um toque decidido que não me deixe mais fugir por aí. um toque forte para não me resistir. um toque apertado que condense o que aperta minha garganta. um toque suave que não me deixe desmanchar. um toque que me envolva as curvas da coluna. um toque que sustente o meu olhar e que me obrigue a olhar pra frente.
e que depois do toque, venha a espera.
a espera da minha reação.
a espera da minha rendição.
um toque suave era a chave da arma-dura, alma-dura
o que era duro se partiu
o que eu precisava surgiu.

és meu de alguma maneira.

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eu não sei o que fazer com as dúvidas que aparecem quando você chega. o que eu mais queria era rasgar o coração e mostrar a verdade nua. aquela verdade que cega a vista na primeira impressão, que causa dor como uma brasa quente na pele. não, não quero te queimar. se eu só soubesse que você sabe das coisas que há tempos guardo de você, você estaria livre pra ir embora. você sempre foi livre. eu que não me livro de você. não sei o que fazer com os restos que sobram depois que você já está longe. são sobras que me consomem. meus sorrisos escondem a minha dor. assim como a noite te esconde. assim como você se esconde em outras bocas.
não vou te tirar de mim. sofro quando tento te sacrificar dos meus pensamentos. vou te acomodar e te guardar. és meu de alguma maneira.
ficarei com você no silêncio do escondido.
ninguém precisa saber.
nem você.

vem depressa, vem sem fim

A saudade pode ser de todos, mas alguns não sabem como tê-la. Precisa-se aprender a sentir. A saudade conforta; deixa vivo o que é pra continuar vivo. Há diferenças entre a dor da ausência e a saudade. A dor machuca e derrama lágrimas tão salgadas que escorregam pelo rosto deixando marcas que vão matando aos poucos. Como se, assim, a dor fosse passar. A dor, por mais que seja dor, e por mais maior que seja a dor, um dia passa. Dor incômoda, esquarteja o sono, mas quando ela passa, esquece-se. Ou tenta-se esquecer. A saudade é tão forte quanto uma tempestade que destrói as bases de um lugar. A saudade pode ser tão gentil quanto uma brisa que alivia um dia quente. A saudade dimini distâncias. A saudade chora sem pressa lágrimas que carregam uma cópia de algo que aconteceu um dia. Cópias que não se acabam. Chora-se de saudade por toda uma vida e mesmo assim as lembranças não se perdem pelo caledoscópio máluco do tempo. A saudade orienta. A dor perde o controle, sendo preciso fazer grande…

não cabe todo mundo no sofá, entendeu?

O sofá é a primeira impressão de uma casa.
Se na sua casa, o sofá não está no cômodo que segue a porta de entrada, pode continuar lendo, porque não vai fazer nenhuma diferença.

Parei pra observar o sofá da minha casa. Ele causa reações diferentes nas pessoas que moram aqui. No início, ele era bonito e desconfortável. Esquentava, deixava o corpo suado e tudo começava a pregar. Dormir nele era algo incrivelmente recusável - só em casos extremos. Hoje, após uma reforma e um pano macio, ele é confortável, lindo e confortável mais uma vez. Poderia ser maior, mas, aí, seria uma cama.

São quatro pessoas e um sofá com três lugares. Algo tenso. Nunca, os quatros estão sentados no sofá. Na maioria das vezes, a distribuição ocorre da seguinte maneira:
-dois sentados, um no chão e um sentado na cadeira
-um deitado, um no chão e os outros dois bem longe da sala
-um deitado e os outros três bem longe da sala
-um sentado, o outro encostado no braço e um na cadeira
-estourando, três sentados e um no chão
-nen…

meu deus, que calor

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Tomou um banho para tirar o gosto de suor e o cheiro da rua do corpo. Vestiu uma roupa qualquer, apenas para cobrir as marcas deixadas pelo sutiã apertado. Passou a mão pelos cabelos molhados, não adiantava penteá-los. Foi até a janela. Muito calor. O céu deveria ter a botão 3. Olhou para baixo, sentiu uma vontade de pular na piscina. Diziam que precisava arriscar na vida. Mas morrer não. Não pulou e nem queria mesmo a piscina. Queria sentir o vento enxugando os últimos pingos d'água do corpo, queria sentir a sensação de não estar presa a nada. Olhou para a rua. Por que tão alto? Pensou: os prédios, algum dia, alcançarão o céu? Não, eles cairiam. Sentiu uma vontade de encostar a cadeira na calçada e conversar sobre a vida alheia. Viu crianças correndo e gritando. Crianças não sabem correr sem gritar. Ouviu crianças rindo. Era uma orquestra. Meninas riam mais fino e davam gritinhos, meninos riam mais alto e tentavam falar, mas o riso engolia as palavras. Lembrou de quando era crian…

um café muito forte e sem açucar

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-Um café muito forte e sem açucar, por favor.
-Uau! Que disposição.
-Por favor, o café.
-Tudo bem, já estou pegando. É nova por aqui?
-O que você entende por nova? É em açucar! Já disse!
-Calma, se não tivesse visto nem ia perceber. Coisa doce anima as pessoas, sabia?
-Não quero ficar animada, quero acordar e me acostumar com essa vida de andar.
-Um café muito forte e sem um grão de açucar, Senhora.
-Você costuma conversar assim com todos?
-Bem, quando não há uma fila desesperada, gritando por café e chocolate quente, sim. Quer mais alguma coisa?
-Não, obrigada. Não posso me atrasar no primeiro dia de trabalho. Vou ter que andar quilômetros, pegar metrô e enfrentar um trânsito de pessoas nas calçadas.
-Ohhh! Você trabalha em outro planeta? A estação fica na outra rua e eu não sei de que lugar você tirou tantas pessoas.
-Tenho fé que vou me acostumar com isso. Na minha cidade, ia de carro até para a padaria da esquina. Já dei umas voltas pela vizinhança e tem tudo que preciso. Não vou ter que ir …