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Mostrando postagens com o rótulo fora de casa

muro do fim do mundo

Dulce tirou seu corpo ainda lento de sono e foi ver o sol. Não, Dulce sempre preferiu um contato mais íntimo. O sol é tão tímido que usa o que tem de mais vistoso para impedir que curiosos o encarem de frente. Dulce não queria ter seus olhos de curiosa queimados pela fúria de um estrela em chamas. Dulce preferia andar sobre o sol, encostar nas paredes onde o sol fazia suas sombras, sentir o sol deixar sua cabeça quente. Descalça, sentiu a quentura dos grãos de areia do terreno fazer cócegas nos seus pés. Foi andando, chutando pedrinhas e pulando sobre formigueiros, que mais pareciam buracos cheios de vírgulas. O fim do quintal era para Dulce como o fim do mundo. Nos dias que aparentemente não aconteciam nada, Dulce se aventurava pelo quintal até o fim do mundo. O chão quente a fazia ficar levantando os pés num ritmo que só aumentava. Dulce corria, atravessava os gigantes obstáculos de tijolos que seu pai construía. Na verdade, não eram obstáculos, eram apenas tijolos amontoados. Mas,...

um café muito forte e sem açucar

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-Um café muito forte e sem açucar , por favor. - Uau ! Que disposição. -Por favor, o café. -Tudo bem, já estou pegando. É nova por aqui? -O que você entende por nova? É em açucar ! Já disse! -Calma, se não tivesse visto nem ia perceber. Coisa doce anima as pessoas, sabia? -Não quero ficar animada, quero acordar e me acostumar com essa vida de andar. -Um café muito forte e sem um grão de açucar , Senhora. -Você costuma conversar assim com todos? -Bem, quando não há uma fila desesperada, gritando por café e chocolate quente, sim. Quer mais alguma coisa? -Não, obrigada. Não posso me atrasar no primeiro dia de trabalho. Vou ter que andar quilômetros , pegar metrô e enfrentar um trânsito de pessoas nas calçadas. - Ohhh ! Você trabalha em outro planeta? A estação fica na outra rua e eu não sei de que lugar você tirou tantas pessoas. -Tenho fé que vou me acostumar com isso. Na minha cidade, ia de carro até para a padaria da esquina. Já dei umas voltas pela vizinhança e tem tudo que preciso....

copinho de plástico

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Era um pouco mais de uma hora quando entrei no ônibus. Paguei a passagem com moedas achadas pelos bolsos, ouvi um obrigasdo mal pronunciado do trocador e passei. Passei da catraca e passei a ser mais uma peça naquele têtris humano que são os ônibus. Achei um espaço que me cabia e lá fiquei tentando me equilibrar com apenas uma mão. Uma senhora distraída estava sentada na minha frente, olhando para a janela com olhos de quem para para pensar. Demorou alguns minutos para ela reparar na minha situação. Até pensei em pedir para ela segurar meus livros, mas não queria atrapalhar o pensamento daquela mulher, por mais pesado e incomôdo fosse segurar-se apenas com uma mão. O ônibus freava e lá se ia tudo para frente. Bendita Inércia! Nessas horas, lembro-me do cinto de segurança tão desprezado quando se está em um carro. A senhora, enfim, olha para mim e se oferece para me ajudar. Minha vontade era dizer que já não era a hora, mas agradeci com um sorriso. Segurei com as duas mãos as barras de ...

século passado

Ainda é possível se encantar com o centro da minha cidade. A história ainda está nela e não só nos livros. Nas suas ruas, nas suas luas e nas suas esquinas. Ontem, depois de muito perguntar, peguei um ônibus que ia parar quase em frente ao meu destino. Quando entrei, estava tão lotado, que, por minutos, tive a impressão de levitar. Bem, isso durou, realmente, apenas alguns míseros segundos, mas nada melhor que uma metáfora para intrigar os leitores de uma composição. Voltemos ao ônibus. Com o passar dos quarteirões, a solução humana foi se evaporando, até restar apenas aqueles que encontraram um lugar para sentar. O corredor ficou livre, o vento circulou e a gotas de suor acumuladas no corpo sumiram como boas almas. O ônibus dobrou a direita e foi-se logo percorrendo a extensão da rua da entrada lateral do Theatro. As antigas grades de ferro fundido estavam deslocadas entre tantas portas de comércios enferrujadas. Muitos que estavam lá dentro nem repararam no prédio, com arquitetura e...

indo embora

Estava decidido e essa era sua única certeza. Era muita estrada para tão pouca certeza. Pegou a mochila, sua amada, entrou no carro, olhou para a frente e virou a chave. Tudo aquilo tinha volta; bastava sair daquele carro, se jogar no sofá, se conformar com o que estava passando na TV e esquecer essa paranóia de buscar o que tanto desejava. Já tinha adiado muita coisa para deixar aquela decisão para outro dia. Parou em um posto, regulou os pneus, jogou água nos vidros cinzamente empoeirados e encheu o tanque. Se precisasse de mais alguma coisa, pararia no caminho. Enfrentando a lentidão do trânsito do centro da cidade, ignorando bêbados no sinal e pegando quase todos os sinais vermelhos chegou na rodovia. Olhou pro velocímetro, pro relógio e começou uma corrida de opostos entre os dois. Maior velocidade e menor tempo. Ele tinha que sair daquele lugar rápido. O fantasma do retrocesso e do arrependimento o seguiam em silêncio. Ligou o som e colocou na rádio de toda manhã. Notícias do dól...

guia torto do carnaval.

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A vida nem é tão complicada assim; abra os braços, faça uma careta e ria de si mesmo. Mande um beijo para alguém que está longe, mas, se for possível, vá até a pessoa e beije-a. Ela ficará tão feliz que sentirá vontade de voar com você. Mas você não pode largar tudo e voar; não pode deixar o Dugald, o largarto de estimação, sozinho em casa. Desista de voar, pegue a mochila, um chapéu, o Dugald e saia pelo mundo. Com o caminho é longo, leve sempre um livro para ocupar o tempo. Se o carro quebrar, coloque as coisas nas e vá andando. Se não souber o caminho, dê as costas e siga as passadas. Quando cansar, pegue uma rede e durma. Ao acordar, escale alguma montanha, o céu é mais bonito lá de cima; mas se estiver com calor, tome um banho antes e depois escale a montanha. Não esqueça de bater uma foto ao chegar lá. Desça correndo e procure abrigo debaixo de alguma árvore grande. Nem invente de pensar nas contas do cartão de crédito, na prova da próxima semana... você está num momento descomp...

tetris humano

Lá vinha ônibus vazio. A medida que ele se aproximava, as peças se posicionavam estrategicamente para tentar levar vantagem logo no ínicio do jogo. O coletivo para no ponto marcado...o jogo começa! Um turbilhão de monominós adentra a caixa onde aconteceria o tão rotineira partida. Tetris coletivo humano possui regras semelhantes ao jogo eletrônico. Existem as peças de acomodação, ou seja, são aquelas que conseguem ficar sentadas, sem ocupar o corredor principal; o risco de cair dessas peças são bem menores. Quando todas as cadeiras estão ocupadas, começa a segunda parte da batalha. A porta se abre em todos os lugares combinados, e as peças de ocupação de qualquer espaço vazio entram desesperadamente. O ônibus se aproxima do fim da linha. Quando uma linha é completada, as peças desaparecem e dão aportunidades para outros jogadores participarem.
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É bom sair na rua no fim da tarde, quando o sol cansa de esquentar nossas cabeças e se esconde. Basta ter um pouco de atenção para notar os comportamentos de quem é capaz de se movimentar sem carro. Tem aqueles que passam a avenida andando, que dá um sorriso pra um conhecido, que até cantarola. Tem aqueles que andam apressados sem ter pressa, olhando para trás a cada barulho estranho, tentando deixar passar quem insiste andar atrás sem saber que está incomodando o da frente. Tem aqueles que estão voltando do trabalho; conhece-se pela expressão cansada, a roupa amassada... Tem aqueles que estão indo trabalhar; estes, conhece-se pelo cabelo molhado, o passo apressado e carreira dada quando o ônibus tal se aproxima. Tem aqueles que estão indo comprar pão, escontram um amigo na rua, começam a conversar e acabam...acabam esquecendo o que ia fazer, não me lembro agora. Tem aqueles senhores simpáticos de chapéu que vão andar e tomar sol para evitar reumatismo. Tem aqueles, os não preventivos,...
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Rua Castro e Silva. Desde longe, a pontuda torre da catedral domina o paisagem. O sol, ainda desorientado, buscando força na admiração dos distraídos que perdem alguns minutos de suas vidas admirando seus singulares espetáculos, vai acordando sem pressa. Nessa hora, são omitidas todas as cores frias e resta, apenas, atrevidas formas. Avanço mais alguns metros e me sinto cada vez menor. Diante de tanta luz, o mistério das coisas. As nuvens, vedetes do céu, desfilam pelas janelas, exibindo seus corpos iluminados pela matutina audácia do sol. A cruz no alto da torre parece alcançar o amarelo do infinito a cada passo dado em direção aos restos do passado que ainda vivem pelas ruas de minha cidade.
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-O lado passivo de uma viagem. "Há mais que o simples ser em cada coisa. Mesmo quando nada mais for, tudo será em nós, e saberemos descobrir o verso oculto até nos mais desprezados objetos" - Linhares Filho

arruma as malas! já é sexta-feira!

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Se o dono do colégio me desse a permissão de fazer uma mudança nos eventos escolares, com certeza colocaria em prática a idéia que tive esses dias. A idéia é a seguinte: após o término do ensino médio, o aluno terá direito a ir a mais 3 acampamentos! Temos que passar nosso conhecimento para as gerações futuras. Acampamento é para se chegar correndo, com a voz boa, limpo, com a mala arrumada, com o celular desligado e ir embora cansado, com sono, com as unhas sujas, com quase todas as roupas limpas, porque trocar de roupa é chato, com a mala desarrumada, com o email da galera nova, com a promessa de que toda a turma vai se encontrar depois, mesmo sabendo que isso não acontece, com vinte arranhões no corpo, uma unha arrancada, o pé ferido, as costas vermelha de tanto sol e muitas fotos sem noção para você matar a saudade depois e colocar onde você quiser e mesmo depois de tudo isso não temos vontade de ir embora. A libertação começa na sexta-feira de manhã. Prestar atenção na aula prof...