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muro do fim do mundo

Dulce tirou seu corpo ainda lento de sono e foi ver o sol. Não, Dulce sempre preferiu um contato mais íntimo. O sol é tão tímido que usa o que tem de mais vistoso para impedir que curiosos o encarem de frente. Dulce não queria ter seus olhos de curiosa queimados pela fúria de um estrela em chamas. Dulce preferia andar sobre o sol, encostar nas paredes onde o sol fazia suas sombras, sentir o sol deixar sua cabeça quente. Descalça, sentiu a quentura dos grãos de areia do terreno fazer cócegas nos seus pés. Foi andando, chutando pedrinhas e pulando sobre formigueiros, que mais pareciam buracos cheios de vírgulas. O fim do quintal era para Dulce como o fim do mundo. Nos dias que aparentemente não aconteciam nada, Dulce se aventurava pelo quintal até o fim do mundo. O chão quente a fazia ficar levantando os pés num ritmo que só aumentava. Dulce corria, atravessava os gigantes obstáculos de tijolos que seu pai construía. Na verdade, não eram obstáculos, eram apenas tijolos amontoados. Mas,...

meu deus, que calor

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Tomou um banho para tirar o gosto de suor e o cheiro da rua do corpo. Vestiu uma roupa qualquer, apenas para cobrir as marcas deixadas pelo sutiã apertado. Passou a mão pelos cabelos molhados, não adiantava penteá-los. Foi até a janela. Muito calor. O céu deveria ter a botão 3. Olhou para baixo, sentiu uma vontade de pular na piscina. Diziam que precisava arriscar na vida. Mas morrer não. Não pulou e nem queria mesmo a piscina. Queria sentir o vento enxugando os últimos pingos d'água do corpo, queria sentir a sensação de não estar presa a nada. Olhou para a rua. Por que tão alto? Pensou: os prédios, algum dia, alcançarão o céu? Não, eles cairiam. Sentiu uma vontade de encostar a cadeira na calçada e conversar sobre a vida alheia. Viu crianças correndo e gritando. Crianças não sabem correr sem gritar. Ouviu crianças rindo. Era uma orquestra. Meninas riam mais fino e davam gritinhos, meninos riam mais alto e tentavam falar, mas o riso engolia as palavras. Lembrou de quando era cria...

guerra dos olhos

Diário de Manoela, 25 de março de 1992. . É fácil perceber quando um homem está observando uma mulher. E mais fácil ainda quando você é a mulher. Servi-me sem pressa, como o de costume, mas, principalmente, para ver aonde aquilo ia parar. Quando um par de olhos - um bonito par de olhos, vale ressaltar - está caído sobre você, é como se um peso dificultasse qualquer movimento para fora do campo de visão. Ontem, paguei a conta e fui andando até a mesa no final do restaurante. Até lá, percorri um caminho de probabilidade . A chance de nossos olhares interesseiros se encontrem era máxima. Ele tentou me sugar feita uma onda quando a maré está cheia. Sabe como é? Na ida, te dá uma chance de escapar correndo pela areia, na volta te puxa sem pena e te leva pra qualquer longe da sua chance de escapar. Ele tentou me prender, mas não conseguiu. Sentei de costas para as entradas e não vi mais nada. Melhor, iludidamente pensei que nunca mais o encontraria. Hoje, cheguei mais tarde do que ontem. L...

frutas, sabonetes e depilação

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. . Estava no supermercado comprando coisas para o final o semana. Sempre começo pelas frutas, cereais e coisas ditas saudáveis. Passo pelos chocolates, bolachas e e coisas que dizem que engordam, fazem mal, entopem as veias - tenho dezoito e estou vivinha . Mas tem uma coisa nos supermercados que me prendem mais do que peixe e chocolate. Não que eu goste incrivelmente de peixe. Gosto mesmo é de ir ver os peixes crus. Eu sei que eles estão mortos, coitados, mas é legal ver as escamas, os olhos ainda brilhando. Na verdade, uma aula pessoal de anatomia. Mas, Peixinhos, saibam que prefiro o cheiro de vocês vivos! Saindo da minha declaração de amor aos peixes. Em relação aos chocolates, é raro não ter nem que seja uma barrinha de milímetros no carrinho. Isso é herança do meu pai. O ser humano é alucinado saudavelmente por chocolate e passou isso pra mim! Durante o período de vida do chocolate lá em casa, sou acusada de devoradora incontrolável de coisas doces. Tá bom. Saindo da minha c...

o chapéu gosta muito da karine!

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ISSO É UM PRESENTE! PARABÉÉÉÉNSS KARINEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE! Você é o ser humano de meio metro mais legal do 'nosso' local de estudo novo! A futura psicóloga mais lou...melhor ficar calada xP beijo e sinta-se amada por mim! (eeeita hauehe)

divina ação humana

Diário de Manoela, 16 de outubro de 1991 A missa já tinha começado quando cheguei. Não que quisesse assisti-la, era mais um costume do que uma vontade de encontrar paz naqueles sermões. Fiquei na escadaria, encostada no corrimão, a olhar aquelas filas de bancos cheios de pessoas aparentemente atenciosas. Fiz o sinal da cruz, desci os degraus com a mesma calma que um padre se encaminha para o altar e sentei em um dos bancos de ferro da praça em frente. Os bancos vazios emanava uma solidão fria que previa chuva. Pessoas passavam apressadas pela praça, alheias ao vento que balançava os galhos das árvores; aos cachorros que descançavam suas vidas perto da fonte sem passarinhos bebendo água. Tudo estava vazio. A alma daquela praça não tinha mais a mesma alma das praças dos tempos passados. Faltava na alma daquele lugar amor, música e sorrisos de vizinhos que se encontram por acaso. Minha avó, nas noites que dormia em sua casa com meu pijama verde, contava-me os segredos que aquela praça ain...

sem búzios, cartas e bola de cristal

Enumerando os fatos, mulher precisa desse tal sexto sentido ou, para ser mais clara, capacidade de adivinhar desgraças e afins. Mestruação . Considere-se uma mulher literalmente com sorte se o seu ciclo mestrual for organizado, começando e terminando em dias previstos. Se for um dessas mulheres, é de extrema importância que continue com a leitura. Calma, seu hormônios não irão desorganizar por isso. É apenas para conhecer como é a vida de mulheres com poderes mágicos de adivinhação mestrual . O mês começa com a certeza de que em algum dia algo sairá de nós. O ato de sair de dentro do corpo deveria ser algo confortante, que nos deixasse mais leve, mas não, nos deixa inchada e com dores que se estendem da cabeça aos joelhos (caso se os seus pés entre na sua lista, informe-me). Por mais desregulada que seja essa limpeza ovular, conseguimos nos guiar e prever o dia que isso vai acontecer. Disse , prever. Nada é certo nesse planeta vermelho. Previsão feita, o mês segue normal. Digamos qu...

A fita, o vestido e a jaqueta.

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Lidu sentou na parada do ônibus. Tinha mais duas pessoas, mas ela não se importou com isso. Uma fita vermelha envolvendo o pescoço e unindo as pontas em um laço, um vestido floral e uma jaqueta roxa a deixava divertida entre tantas camisetas de um cor só e calças jeans azul. Vermelho, flores e roxo não é lá uma combinação que agrada a todos. Mas tal combinação agradou Lidu e a deixou linda. Em outra pessoa, poderia não ficar a mesma coisa. Quem sabe, delicada, mas linda não. Linda só Lidu ficava. Um velho vento úmido trazendo notícias da chuva batia em seus cabelos. Lidu não se incomodou; continuou com a mão no queixo e soltou um sorriso tão discreto que as duas pessoas de óculos escuro que estavam por perto não puderam perceber. Quem estivesse sem pressa e usasse uma combinação fora do normal perceberia. O ônibus apareceu na esquina. Lidu se levantou;o vento insistiu em levantar as florzinhas do seu vestido, mas, dessa vez, segurou desajeitadamente o vestido e fez uma cara de dona das...