guerra dos olhos

Diário de Manoela, 25 de março de 1992.
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É fácil perceber quando um homem está observando uma mulher. E mais fácil ainda quando você é a mulher. Servi-me sem pressa, como o de costume, mas, principalmente, para ver aonde aquilo ia parar. Quando um par de olhos - um bonito par de olhos, vale ressaltar - está caído sobre você, é como se um peso dificultasse qualquer movimento para fora do campo de visão. Ontem, paguei a conta e fui andando até a mesa no final do restaurante. Até lá, percorri um caminho de probabilidade. A chance de nossos olhares interesseiros se encontrem era máxima. Ele tentou me sugar feita uma onda quando a maré está cheia. Sabe como é? Na ida, te dá uma chance de escapar correndo pela areia, na volta te puxa sem pena e te leva pra qualquer longe da sua chance de escapar. Ele tentou me prender, mas não conseguiu. Sentei de costas para as entradas e não vi mais nada. Melhor, iludidamente pensei que nunca mais o encontraria.
Hoje, cheguei mais tarde do que ontem. Lá, estava ele, sentado no mesmo local, na mesma cadeira, levando o garfo lentamente a boca. Ele iria me ver novamente. Iria me sugar novamente, era só questão de tempo. Fiz o mesmo caminho; servi-me com total atenção; não me dispus a olhar para nenhum lado. Preferi acreditar que estava na sozinha ali. Como de costume, paguei a conta e procurei meus amigos pelo local. Quis morrer quando vi. Na verdade, quis sentar em outro lugar quando vi que os outros estavam sentado na mesa ao lado da dele. Eles não tinham culpa; não sabiam que aqueles olhos azuis queriam me puxar para dentro de seu espectro. Eu não iria cair nessa. Restava-me apenas um lugar do lado oposto ao dele. Sentei e quase enfiei a cara do prato, como se fosse possível entrar ali e se esconder entre tanto arroz e cenoura. Não queria que os outros percebessem nosso relacionamento. Fui discreta com os outros e teimosa com ele. Olhando de lado, via quando não estava a prestar atenção em mim. E era nessas horas que eu vencia minha vergonha e encarava o seu rosto. Nunca mais os seus olhos. Ele enchia a boca de comida e mastigava cade grão de arroz, encostado confortavelmente na cadeira, em oposição a minha tensão de engolir logo, para acabar logo e ir embora logo.
Tinha os cílios enormes e bem escuros; sombracelha desalinhada e assanhada que o deixava com cara de homem, homem mesmo. Tinha lábios finos e vermelhos, mas o seu sorriso não pude ver.
Não ousei nem um mínimo sorriso no meu rosto. Ele estava longe de ser algo que preenche a minha alma feminina de uma forma louca ao ponto de me fazer sonhar com o próximo encontro. Podia até fazer as outras sonharem. Eu não. Sua beleza era desconfortável. Acentuava as imperfeições de quem sem saber passava ao seu lado.
Ele levantou da mesa e seguiu o corredor que estava atrás de mim. Imaginei seu corpo encostado na porta, tomando um café, esperando um último olhar de despedida. Minutos passaram e foi a minha vez de sair daquele lugar que tirou dos meus gestos qualquer inocente timidez. Olhei para trás e não o encontrei mais. Senti como se tivesse perdido algo, uma guerra.
Perdi uma guerra. E a guerra era ele.
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Comentários

este post me lembrou do Brad Pitt.

um filme em que ele excede em talento é "O Encontro Marcado" título original: "Meeting Joe Black".
Erica Ferro disse…
Quando se deparar com outra guerra, não fuja dela.

Belo texto.

Beijo.
Rebeca Rocha disse…
Não perca mais a guerra!
Yohana Tanzkaya disse…
Não perca mais a guerra! Concordo com a Rebeca.
Serve de aprendizado..rs
Caio Timbó disse…
Senti algo lendo isso, não sei o que exatamente, mas senti, e era bom.

ótimo texto! Beijo
João Medeiros disse…
"Tenho que fazer algo com você Não sei mais onde colocar tantas lembranças suas Me pego pensando no que você pode estar fazendo agora Se o seu trabalho está indo bem Se você está bem Eu sei das suas alergias..." - isabelle, isabelle, o q vc tem na cabeça?...
Malú disse…
Uma guerra de olhos azuis?
Ah, vem cá, você não vai desistir dela agora, vai?
Marcelo Mayer disse…
vc não perdeu esta guerra. vc a criou esta guerra. vc ou a garota de 1992 rs

muito bom!
O Profeta disse…
À volta desta fogueira
Aquecem os corações, almas penadas
À volta desta fogueira ninguém foje
Todos contam lendas de pessoas encantadas

Todos rezam, todos pedem
Que desça o céu à terra
Todos falam de um anjo
Que travou uma santa guerra

Manto de água, mundo verde
Manhãs de sol posto no céu
Às vezes a luz perde-se na noite
À vezes um coração veste um negro véu


Mágico beijo
Jéssica Trabuco disse…
As vezes a gente acaba perdendo oportunidades por teimosia.. oq custava se rendeR?
Hosana Lemos disse…
"Perdi uma guerra. E a guerra era ele. "

putz o.o'
essa me deixou calada.
Renata disse…
Aaaa. Qe lindo, imaginei a cena... Perfeito melhor dizendo!
Nãao desista da batalha perdida (foi uma batalha, não uma guerra). Lute! Volte e vença!
Beijos :*
Tiago P. disse…
Olhares... Desde sempre fui fascinado por olhos, msm atualmente não enxergando tão bem. E essa troca de olhares, esse jogo que vc chama de guerra, é demais. Se a guerra tivesse sido vencida, não teria sido tão interessante.
Tiago P. disse…
Oi Isabelle. Tô aqui hoje pra te convidar pro Movimento Dois Mil É Dez! É uma blogagem coletiva sobre otimismo em geral.

É só copiar o selo que tá na lateral do meu blog e escrever um texto sobre suas expectativas positivas para 2010. Ae é só postar o texto e o selo, e pronto!

Caso resolva participar, é só me deixar um comentário lá no GAZ. Pretendo fazer uma lista com todos os blogs participantes e colocar lá no GAZ. O dia da postagem será quinta-feira. Conto com vc. Abç.
Camilla Angelo disse…
Passei aqui pra te dar um beijo, dizer que estive sumida mas reapareci! Visite o meu blog também!
Tiago P. disse…
Isabelle, desculpa avisar assim na ultima hora, mas o dia da postagem do Movimento Dois Mil É Dez foi modificada para sábado. É nesse sabadão, dia 19. Ainda conto com vc? Beijao.
Ana C. disse…
Ai q ótimo q vc é do Ceará!
É de Fortaleza? :D
Sobre o texto... A M E I !
Vai ter continuação? (diz que sim, diz que sim!)
;)
Cary disse…
amei o post , mesmo *_*.

isso vive acontecendo comigo, e como vc eu enfio a cara no prato também!haha
adorei o blog, vou seguir
beijão!
:*
Lacobos disse…
"Em tempos de paz o guerreiro só tem uma alternativa: Atacar a si mesmo"

Bueno texto e bueno blog, adorei conhecer!

E valeu por comentar no meu ;) serei frequentador aqui, muy bueno mesmo!

Boas Festas, camarada!

Uacht,

Lacobos
muito perfeito seu texto.
Nossa nossa nossa! ...
*_*
Meysa disse…
Que emocionante! ja me vi em uma situação dessas...mas não perca outra guerra rsrsrs deixe a onda te arrastar ...

Abraços

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