we all love porn



Não tenho palavras pra descrever a sensação de deitar no chão do quarto, suja mesmo, com a roupa suada, com a pele grudando no chão gelado e até ousar fechar os olhos numa cochilada, indo na contramão de dormir sem tomar banho. É excitante ver meu corpo descansar, jogado na cama ou no chão, depois de um dia lotado, daqueles que invento de ter faz um tempo. É revigorante se jogar embaixo de um jato de água gelada e sentir um choque térmico percorrer meu corpo até a água bater no chão. Poucas coisas na vida são tão prazerosas. Porém, é desafiador esperar o corpo esfriar sozinho, a medida que minha respiração acalma, ou senti-lo queimar de vez, tendo gotas de suor deslizando por entre as camadas de roupas. Teve um dia que cheguei e tomei um banho logo, coisa que raramente faço. Me despi como quem tira uma roupa em chamas e pulei pra dentro do box como quem tá derretendo e senti a água escorrer como quem já conhece meu corpo quente e dolorido da rotina. Terminado esse batizado rotineiro, vesti uma blusa qualquer. Dei umas mil voltas entre o quarto e o banheiro, passando pelo espelho do guarda roupa, quando parei pra me ver. Passo o dia passando a mão no cabelo, tentando dá um jeito nesse liso escorrido e me olhando no espelhinho da bolsa pra ver se estou afim ou não de cobrir minhas sardas. Mas, naquele dia, tarde da noite, com o cabelo molhado, a cara lavada e um blusa detonada escrito we love porn, parei e fiquei observando na mulher que me tornei. Louca? We all love porn, com um gota escorrendo na última letra, escrito em letras imensas e estampando minha pele antes de uma noite de sono pesado. Poderia ser i love ny, ou i love qualquer coisa, mas era justamente pornografia, escrito em inglês. Ah, o inglês. Era justamente um coro silencioso, uma imposição que não era só eu que amava algo tão inevitável. Pessoas são tão irresistíveis quando param de perder tempo querendo parecer algo ou disfarçar algum defeito, alguma cicatriz ou algumas estrias pelo corpo. Somos assim, com sardas na cara, com umas manchas na pele e uma cabelo ruivo com uma raiz para retocar. Faço tudo ao mesmo tempo, torno os meus dias uma verdadeira batalha, as quais quero ganhar todas. Perco, quebro a cara, chego em casa, tomo um banho e metade das coisas se não forem resolvidas, são deixadas de lado, pelo menos por aquela noite. Gosto do perigo, mas não sei guardar segredo. Não gosto de aperto, mas, às vezes, quero dividir uma cama de solteiro e uma rede na varanda. Não gosto do sufoco, mas quero que me deixem sem ar. Gosto do meu cabelo assanhado e gosto mais ainda quando me assanham. We all love this. Eu assumo meus gostos, pornograficamente, mas eu também faço amor, faço as pazes, faço meu mundo virar ao contrário se eu enjoar disso tudo. Eu me sinto livre, embora minha mãe vá surtar se eu sair sem avisar. Enfio a cara nessa vida, e ela devolve com força e segurando minha mão.

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