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guerra dos olhos

Diário de Manoela, 25 de março de 1992. . É fácil perceber quando um homem está observando uma mulher. E mais fácil ainda quando você é a mulher. Servi-me sem pressa, como o de costume, mas, principalmente, para ver aonde aquilo ia parar. Quando um par de olhos - um bonito par de olhos, vale ressaltar - está caído sobre você, é como se um peso dificultasse qualquer movimento para fora do campo de visão. Ontem, paguei a conta e fui andando até a mesa no final do restaurante. Até lá, percorri um caminho de probabilidade . A chance de nossos olhares interesseiros se encontrem era máxima. Ele tentou me sugar feita uma onda quando a maré está cheia. Sabe como é? Na ida, te dá uma chance de escapar correndo pela areia, na volta te puxa sem pena e te leva pra qualquer longe da sua chance de escapar. Ele tentou me prender, mas não conseguiu. Sentei de costas para as entradas e não vi mais nada. Melhor, iludidamente pensei que nunca mais o encontraria. Hoje, cheguei mais tarde do que ontem. L...

divina ação humana

Diário de Manoela, 16 de outubro de 1991 A missa já tinha começado quando cheguei. Não que quisesse assisti-la, era mais um costume do que uma vontade de encontrar paz naqueles sermões. Fiquei na escadaria, encostada no corrimão, a olhar aquelas filas de bancos cheios de pessoas aparentemente atenciosas. Fiz o sinal da cruz, desci os degraus com a mesma calma que um padre se encaminha para o altar e sentei em um dos bancos de ferro da praça em frente. Os bancos vazios emanava uma solidão fria que previa chuva. Pessoas passavam apressadas pela praça, alheias ao vento que balançava os galhos das árvores; aos cachorros que descançavam suas vidas perto da fonte sem passarinhos bebendo água. Tudo estava vazio. A alma daquela praça não tinha mais a mesma alma das praças dos tempos passados. Faltava na alma daquele lugar amor, música e sorrisos de vizinhos que se encontram por acaso. Minha avó, nas noites que dormia em sua casa com meu pijama verde, contava-me os segredos que aquela praça ain...