Postagens

Mostrando postagens com o rótulo contos escuros

outro tipo de matemática.

-O que você tem? Ele não sabia. Ele nunca aprendeu a fazer cálculos de palavras. Aquela pergunta poderia ter sido feita por qualquer voz, por qualquer pessoa que o encontrasse na rua gritando: eu tenho! eu tenho! -O que você tem, então? Não era qualquer pessoa. Ela se aproximou e ele foi capaz de ver suas rugas costuradas naquela pele que ele tanto já tinha visto sem maquiagem, quando acordava, olhava para o lado e a vi na sua forma mais pura. O que ele tinha? Ele tinha tudo. Seu coração estava que nem um copo a beira de transbordar. Uma batida na mesa, uma leve batida na mesa, faria a mesa tremer, o copo tremer...seu corpo todo tremia, tentando equilibrar a lágrima tímida que já tendia a escorregar pelo nariz. Seus pensamentos não cabiam mais na caixa de guardar pensamentos que ganhou na hora de nascer. Estava tudo lotado, no extremo limite. Tudo apertado. Tudo guardado demais. -O que você tem? Me diz. Sua voz estava presa. Sua vontade era de se partir ao meio e mostrá-la o turbilhão ...

uma velha caixa de baralho

Dizer que ela iria é uma forma sutil de di zer que ela já tinha ido. Não fez cena para decidir. Jogou umas roupas na bolsa. Jogou a bolsa no chão. Foi até o espelho e começou a se despir. Arrancou todo tipo de gosto que sua pele tinha, queimou todo tipo de agressão que seus ouvidos tinham ouvido e engoliu as palavras que eram para ter sido ditas. Só faltava esquecer aquele momento do espelho. Matar qualquer lembrança que a fizesse lembrar dos dias que passou naquele lugar. Não poderia mais, jamais, lembrar da sua cara refletida no espelho, do lixo sentimental que tirou do seu corpo e da decisão que tinha tomado. Lembrar a fazia pensar. E pensar demais sempre a fazia mudar de idéia. Bateu a porta com força, não para quebrá-la, mas para assustar os fantasmas daquele lugar que só tinha de branco as paredes. Virou a chave. Tirou a chave. Abriu a porta. Era como se facas a perfurassem a cada passada dada naquele caminho de volta. Foi até o espelho e o quebrou com um murro. Pedaços de uma mu...