uma velha caixa de baralho

Dizer que ela iria é uma forma sutil de di zer que ela já tinha ido. Não fez cena para decidir. Jogou umas roupas na bolsa. Jogou a bolsa no chão. Foi até o espelho e começou a se despir. Arrancou todo tipo de gosto que sua pele tinha, queimou todo tipo de agressão que seus ouvidos tinham ouvido e engoliu as palavras que eram para ter sido ditas. Só faltava esquecer aquele momento do espelho. Matar qualquer lembrança que a fizesse lembrar dos dias que passou naquele lugar. Não poderia mais, jamais, lembrar da sua cara refletida no espelho, do lixo sentimental que tirou do seu corpo e da decisão que tinha tomado. Lembrar a fazia pensar. E pensar demais sempre a fazia mudar de idéia. Bateu a porta com força, não para quebrá-la, mas para assustar os fantasmas daquele lugar que só tinha de branco as paredes. Virou a chave. Tirou a chave. Abriu a porta. Era como se facas a perfurassem a cada passada dada naquele caminho de volta. Foi até o espelho e o quebrou com um murro. Pedaços de uma mulher cairam no chão. Ela olhou os cacos e a viu como uma pintura cubista. Um quebra cabeça. Talvez, a única chance de embaralhar o que já estava feito, na procura de um carta que ainda não tinha sido usada.
Não importa o quanto velha está a caixa de um baralho.
Caixas de baralhos vistas de fora são apenas caixas de baralho.
Dentro de um caixa de baralho, há apenas duas situação.
Na primeira, a caixa está vazia e as cartas já estão na mesa.
Na segunda, a caixa está cheia e a mesa ainda não sabe quem vai enfrentar.

Comentários

Moska de Bar disse…
Um chapéu torto em olhos nivelados. Eu gosto do ângulo e da acidez que suas palavras contém. Na caixa de baralho eu não sei. Mas vejo que sabe usar muito bem o ás estrategicamente colocado na manga. Repito: eu gosto.
Te beijo!
Gabriel Má-Vida disse…
Gosto do teu ritmo e da simplicidade com que descreves a natureza dos processos.Bj
Lua S. disse…
Gosto do angulo que você utiliza para falar das coisas.


Bjs Flor

Postagens mais visitadas deste blog

tereza, não ames!

há de se ter um jeito

Carta para o meu avô