divina ação humana

Diário de Manoela, 16 de outubro de 1991
A missa já tinha começado quando cheguei. Não que quisesse assisti-la, era mais um costume do que uma vontade de encontrar paz naqueles sermões. Fiquei na escadaria, encostada no corrimão, a olhar aquelas filas de bancos cheios de pessoas aparentemente atenciosas. Fiz o sinal da cruz, desci os degraus com a mesma calma que um padre se encaminha para o altar e sentei em um dos bancos de ferro da praça em frente. Os bancos vazios emanava uma solidão fria que previa chuva. Pessoas passavam apressadas pela praça, alheias ao vento que balançava os galhos das árvores; aos cachorros que descançavam suas vidas perto da fonte sem passarinhos bebendo água. Tudo estava vazio. A alma daquela praça não tinha mais a mesma alma das praças dos tempos passados. Faltava na alma daquele lugar amor, música e sorrisos de vizinhos que se encontram por acaso. Minha avó, nas noites que dormia em sua casa com meu pijama verde, contava-me os segredos que aquela praça ainda guarda nas suas esquinas, os beijos que se escondiam atrás das árvores dos olhos dos curiosos, as velhas que usavam as suas tardes bordando panos de prato e blusa para as netas. Era como se a vida seguisse o caminho da agulha e da linha. A chuva prevista veio do céu cinza e começou a molhar o meu coração que estava se contaminando pelo veneno das lembranças. A força daquela solidão não me deixava fugir da chuva. Fiquei ali, olhando o mundo. Meus olhos se prenderam em um casal que vinha correndo sem guarda chuva. Sorriam de mãos dadas, deixando a água molhar os cabelos, as roupas e as bocas. Foram parando devagar. Ele tirou os cabelos dela do rosto, segurou o seu pescoço e a beijou. Aquele pedaço da praça ganhou vida. Aquele beijo cheio de água me encheu de alegria e afastou a solidão que feria como faca a minha alma.

Comentários

Moisés Loureiro disse…
Que liindo! *.*
Caraca, se superou-se a si mesma!
Casa cmg?
Huhu!
Parabéns, Bel.
Você sabe o quanto eu a admiro!
beeijo ;*
Bertonie disse…
Verdade.
O amor completa, preenche tudo.
É lindo :D



beigos mil
YullyAngel. disse…
O amor colori o mundo!....
Flor disse…
Cara, que lindo, quase chorei no final. É tão bom quando alguém completa outra pessoa, desse jeito.

Mas ainda faço algumas loucuras, como beijos às escondidas... É tão bom...rs

Beijo grande.

P.S.: Nunca li o livro, só vi a minissérie pela maldita globo! =)
Achava Rosário linda.
Me fez chorar muitas vezes.
Manteiguinha derretida que sou, rs.
JotaChaves disse…
Vou concordar com todos, o conto está bonito. Mas não vou concordar com o conto, eu no lugar da heroína me sentiria mais solitário. Subjetividade.

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