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sem búzios, cartas e bola de cristal

Enumerando os fatos, mulher precisa desse tal sexto sentido ou, para ser mais clara, capacidade de adivinhar desgraças e afins. Mestruação . Considere-se uma mulher literalmente com sorte se o seu ciclo mestrual for organizado, começando e terminando em dias previstos. Se for um dessas mulheres, é de extrema importância que continue com a leitura. Calma, seu hormônios não irão desorganizar por isso. É apenas para conhecer como é a vida de mulheres com poderes mágicos de adivinhação mestrual . O mês começa com a certeza de que em algum dia algo sairá de nós. O ato de sair de dentro do corpo deveria ser algo confortante, que nos deixasse mais leve, mas não, nos deixa inchada e com dores que se estendem da cabeça aos joelhos (caso se os seus pés entre na sua lista, informe-me). Por mais desregulada que seja essa limpeza ovular, conseguimos nos guiar e prever o dia que isso vai acontecer. Disse , prever. Nada é certo nesse planeta vermelho. Previsão feita, o mês segue normal. Digamos qu...

um buraco preto no vestido

O padre veste a batina. O noiva aperta a gravata. A mãe da nova ajeita as flores dos bancos. O bebê chora com calor. A tia gorda reclama de fome. O dia do casamento chegou e nem sinal da noiva. O celular estava no bolso da calça do futuro marido. Os convidados estão preocupados, olhando para o relógio a cada minuto. Menos a prima do interior que já está planejando o casamento com o primo forte, estudado e que mora num apartamente de rico. Uma criança que corria pela igreja grita: "a noiva está chorando na escada!" Começa uma maratona no tapete vermelho. A mãe corre; o noivo corre; o pai corre; a tia gorda corre; o padre reza e a prima do interior bate palmas. Agora ela desencalha! O noivo pergunta o motivo do choro. A mãe diz que não vai pagar hora exte pela igreja. A noiva chora, enxuga as lágrimas e se levanta. As mulheres da família da noiva desmaiam. Tinha um buraco no vestido que mostrova a calcinha preta! Era tradição da família da família casar usando calcinha preta, m...

A minha paz fica. O resto pode levar.

Levem tudo, mas deixem a minha paz. Ladrões não são humanos burros. Sabem que o celular está em um bolso e o chip em outro, que dentro do carro tem a bolsa falsa, que só tem um batom, um absorvente, para ficar bem pessoal, e dez reais e a bolsa verdadeira que está embaixo do banco ou lá no porta malas. Sabem que o dinheiro muito está por dentro da calça, na calcinha, na cueca e no sutiã. Não estou revelando nenhuma novidade. Isso todos sabem. Já se tornou hábito trancar todas as portas, fechar todas as janelas, esconder todo o dinheiro, deixar o celular em casa e usar tudo barato, por que, se levarem, o prejuízo é menor. Não vou aqui tentar solucionar esse problema social, que tem raízes profundas numa terra onde o objetivo é sobreviver. O jogo é do medo. O medo de ser assaltado, o medo de ser preso, o medo de morrer e o medo da consequência se ficar vivo. "O bagulho é doido", disse MV Bill. É doido, acontece todo dia e está entrando na seção das normalidades. Quando se torna...

campinho de areia desgraçado

Estou a usar o tempo que me resta antes que a aula de Metodologia do Trabalho Científica (hãn? quem faz ou já fez entende) comece. Lendo o blog do Bertonie relembrei das minhas experiências infantis com uma bicicleta. Pai, ao ler isso, não sinta-se culpado e nem fala "ah, se eu pudesse voltar no tempo". Agradeço por não poder voltar. Imagina cair tudo novamente? Não me lembro se foi presente ou se foi consequência de uma criança chata que quando quer uma coisa só sossega quando consegue ou se foi a vontade paterna de ensinar o único filho homem a dirigir. Digamos que tenha sido os três. Meu pai deu uma bicicleta para o meu irmão. E não adiante vim com esse papo de fraternidade. Se meu pai disse para ele que a bicicleta era dele no ato da entrega, a bicicleta emocionalmente, fisicamente e implicantemente era dele! Não tinha solidariedade com irmã que desse jeito. E quando algo é seu desse jeito, você tem o prazer dizer: BORA, SAI AGORA! QUE ISSO É MEU! Não quero falar disso. ...

casa organizada dos livros bagunçados

Sou apaixonada por livros. Para mim, não existe parede mais bonita do que uma que tenha uma estante cheinha de livros. Isso logo me revela uma apaixonada, também, por bibliotecas. É lá que minha concepção de beleza se aguça ao olhar para o lado e ver livros, olhar para o outro lado e ver livros, olhar para frente e ver livros, olhar pra cima e ver o que? Lâmpadas, claro; ler no escuro não faz bem para a vista e a luz de vela, por mais que deixe o ambiente com o ar medieval e misterioso, pode ser perigoso. Imagina uma faisca se encontrando com um pedaço de papel? Agora imagina uma faísca encontrando um pedaço de papel por causa que uma distraída tacou a mão na vela? Não imagine. Seria o meu fim, ou fim de muitos livros. Biblioteca é, salvo raras exceções , sinônimo de organização. É chegar e saber onde os livros de história estão. É pedir uma informação para a babá dos livros (bibliotecária para deixar de metáfora!) e ela lhe dizer o corredor, o setor e a numeração do livro. E você va...

Não é chapéu que faz a bruxa

Era uma rua aparentemente sem saída. A casa do chapéu ficava na casa 9 do lado esquerdo na Rua silêncio das línguas cansadas. Não era uma rua comum, nem uma casa comum. Fazia sol no lado esquerdo, chovia no meio da rua e tinha estrelas no lado direito. Quando já estava quente demais, molhado demais e escuro demais, as coisas se invertiam: tinha estrelas no lado esquerdo, fazia sol no meio da rua e chovia no lado direito. Isso o leitor já entendeu. Voltemos a casa 9. Era de madeira, tinha um janelão de vidro, uma placa de madeira no telhado, um toldo listrado e uma porta que não tinha trinco do lado de fora. O velho Brant era o dono da chapelaria . Sempre que o sol ficava no lado esquerdo, ele tirava um cochilo . As pessoas não costumavam entrar lá quando ficavam de cabeças quentes, porque de cabeça quente, não se presta atenção a nada. Um dia, quando chovia no lado esquerdo, uma menina bateu na porta. O velho Brant levantou-se da cadeira que balançava, abriu a porta com a maçaneta ...

Revelar

Estou cansada dos mesmos verbos todos os dias. Andar na rua; correr para pegar o ônibus ; falar ao telefone; beijar uma boca; abraçar alguém; chorar de tristeza; gritar de raiva; beber água gelada; comer um sanduíche; olhar nos olhos; segurar a bolsa; digitar um texto; escrever um depoimento; ligar para o namorado; bater na porta... Cadê os outros? Há quanto tempo não escuto o verbo desenhar? E o combinar no sentido de juntar as coisas e ver no que dá? Estão no dicionário, eu sei. E você os conhece, isso eu também sei. A rotina é monótona porque é feito sempre as mesmas coisas. Há décadas, a pressa comanda o sono, a comida e as relações das pessoas.E é essa pressa que não permite excessões . Concordo com o absolutismo do relógio. Sinto suas ordens mais severas quando acordo dez minutos após o despertador ter tocado! Malditos dez minutos me faz encarar uma corrida sem velocidade, chamada trânsito. Mas até na pressa é possível não ficar destrambelhada! Basta priorizar algumas coisas e p...