Não é chapéu que faz a bruxa

Era uma rua aparentemente sem saída. A casa do chapéu ficava na casa 9 do lado esquerdo na Rua silêncio das línguas cansadas. Não era uma rua comum, nem uma casa comum. Fazia sol no lado esquerdo, chovia no meio da rua e tinha estrelas no lado direito. Quando já estava quente demais, molhado demais e escuro demais, as coisas se invertiam: tinha estrelas no lado esquerdo, fazia sol no meio da rua e chovia no lado direito. Isso o leitor já entendeu. Voltemos a casa 9. Era de madeira, tinha um janelão de vidro, uma placa de madeira no telhado, um toldo listrado e uma porta que não tinha trinco do lado de fora. O velho Brant era o dono da chapelaria. Sempre que o sol ficava no lado esquerdo, ele tirava um cochilo. As pessoas não costumavam entrar lá quando ficavam de cabeças quentes, porque de cabeça quente, não se presta atenção a nada. Um dia, quando chovia no lado esquerdo, uma menina bateu na porta. O velho Brant levantou-se da cadeira que balançava, abriu a porta com a maçaneta da primeira impressão e perguntou:
-Olá, menina. O que queres?
-Não sei
-Não sabe? Então veio ao lugar quase certo. Espere um momento.
O velho Brant fechou a porta e a abriu novamente, mas, agora, com a maçaneta dos segredos.
-Entre, menina.
-Por que o senhor fechou a porta?
-Ah, não me pergunte coisas difíceis. Tem coisas que prefiro não saber.
Estava frio lá dentro. A menina entrou e o velho Brant lhe deu um casaco dizendo que era para sua segurança. A menina riu e não viu perigo entre aquelas dúzias de chapéus espalhados pelas paredes.
-Posso pegar aquele ali de bruxa?
-Você gosta de bruxas, menina?
-É...gosto. Mas nunca quis ser uma.
-Qual a graça que isso tem? Você não sonha?
-Lógico que sonho!
-Então sonhe em ser um bruxa! Você vai gostar ainda mais delas. Venha aqui. Esses chapéus são apenas para aqueles que já sabem o que quer. E esse não é o seu caso. Coloque o casaco, não esqueça!
A menina seguiu o velho até a porta. Brant perguntou-lhe:
-Pra ondes queres ir?
-Como assim? Estou em uma loja de chapéu e quando o senhor abrir essa porta, eu só vou poder ir para a rua.
-Tudo bem, vou escolher o trinco para você. Quando quiser voltar, basta segurar o terceiro botão de baixo para cima do casaco e logo uma porta aparecerá na sua frente.
-O senhor é louco?
-Espero que sim.
Senhor Brant escolheu o trinco das segredos inacredítaveis. A menina saiu da loja e não encontrou a rua aparentemente sem saída. Não estava chovendo no lado esquerdo, nem no meio e nem no lado direito. A menina percebeu que todas as pessoas usavam chapéus pontudos. Até os gatos, os cachorros e os passarinhos usavam chapéus pontudos. A menina estava parada no mesmo lugar, quando um mulher de chapéu pontudo azul chegou perto dela:
-Cadê o seu chapéu?
-Eu não tenho.
-Não tem? Você é nova por aqui?
-É, acho que sou, nunca vi aqui antes.
-Venha, vou lhe mostrar meu mundo!
E assim a a mulher de chapéu pontudo azul mostrou-lhe coisas que se contasse para seu irmão, ele nunca acreditaria.
-Querida, você terá que voltar.
-Mas eu quero ficar aqui! Só aqui poderei ser uma bruxa sem que ninguém ria de mim.
-O chapéu não faz uma bruxa. A bruxa que faz o chapéu, e ele nem precisa ser pontudo. Ah e tome cuidado com coisas pontudas! Fiquei sabendo que no seu mundo coisas pontudas atrem raios. Ainda bem que aqui os raios preferem ficar no céu. Pegue trouxe isto para você. Não se assuste, quando voltar ao seu mundo, ele diminuirá. Mas sempre que voltar aqui, ele voltará a ser o seu chapéu pontudo.
A menina colocou o chapéu pontudo lilás na cabeça, riu e apertou com força o terceiro botão do casaco de baixo para cima. Uma porta apareceu na sua frente. Ela abriu e caiu dentro da casa do chapéu do Senhor Brant.
-Senhor Brant! Deixa eu lhe contar!
-Não me conte nada, menina! Você foi para um mundo onde todos os segredos são inacreditáveis.
-Mas para quem eu conto?
- Olha, as estrelas estão no lado esquerdo. É uma boa hora para você ir pra casa.
-Tchau, Senhor Brant. - falou enquanto tirava o casaco;
-Tchau, menina bruxa! Ei o que é isso na sua cabeça? Um chaveiro?
-Não. Quer dizer, é um chaveiro.
-Saiba que seu chaveira acredita em tudo. Converse com ele.
Senhor Brant fechou a porta com o trinco da saudade e ficou a lembrar de todos os mundos que já visitou. Enquanto isso, a menina tirou o chaveiro da cabeça e quando estava prestes a colocá-lo dentro do bolso, escutou:
-Ei! Não gosto de ficar em lugar fechado! Tenho asma.
-Você fala? Não acredito.
-Pois eu acredito em tudo...

Comentários

Letícia disse…
gostei da história
Tiago P. disse…
Mew.... vc nao eh desse mundo. kKK...


Mto bom, ta de parabens.
m.milena :) disse…
oww beel.. que massa!
Karla Moreno disse…
Incrível. adorei!! =]]

Ah, tem selo pra voc no meu blog.

beijo grande,
Kakau.
Isabelle,

A rua sem saída que e você inventou é paradisíaca, para quem gosta de chuva como eu.
O senhor Brandt me lembrou a figura de um bom homem aqui da minha cidade, que fabrica instrumentos que ele mesmo inventa, à la Thomas Alva Edson.
Vou confessar uma coisa: quando o dia está muito ensolarado, eu uso um chapeu de feltro de aba curta, muito fora de moda, ridículo para a minha idade, só vejo velho usando do tipo.
Lili disse…
adoroo as historinhas...vc devia escrever um livro com os seus contos =P
o template novo tb ficou um arraso!

beijokas
Aline disse…
Há tempos não passava por aqui. Apareci em ótima hora, ou melhor, ótimo post.
Avilla Filho disse…
Torto, você deve ler Kafka, você vai se indentificar.

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