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flores

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Toda mulher é uma flor Que florece Murcha Se dispersa pelo mundo Morre E volta a ser flor. Oh, céus, por que caules tão frágeis? Por que pétalas tão vulneráveis? Uma brisa as levam, uma mão mais forte as arracam. Flores de amor são dadas Flores de beleza são invejadas Flores, apenas flores enfeitam os cabelos Flores nas roupas, nas mãos e na alma Flores cheias de abelhas Flores dentro de um pote d´água dão a sala uma vida ilusória Ah, flores Que Deus permita as mulheres usar as suas loucuras Falar, se excitar, se amar, desamar Por isso, não dê qualquer flor a uma mulher. Escolha, desescolha Flores são as irmãs ocultas da mulher Flores são a felicidade contida da mulher Flores são as mulheres.

janela míope

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Da mesma maneira que se joga a tolha em qualquer lugar do quarto, sem se dar conta onde vai cair, como vai cair, puxo a cortina pro escuro sair. A cortina fechada deixa os livros escuros, o chão gelado e o corpo frio, jogado na cama ainda quente. O escuro sai. A luz ilumina as páginas do meu livro, faz brilhar os fios de cabelo que fazem ondas nas ondas dos lençóis; queima de leve aquela preguiça...é, aquela preguiça. Até que olho pra janela sem roupa e lembro de quando ela era ainda novinha, não tinha cortina, era toda luz, poeira e vidro quente. Dava para ver muito longe, dava pra ver os aviões, dava para os aviões pousando, dava pra ver a nuvens gordas se aproximando como algodões molhados prontos para serem jogados em alguém. Hoje, tinha um monte de tijolo amontoados. Tinha cimento, pedras, areia, madeira. Minha janela agora é míope. Não consegue ver muito longe. A noite chega, puxo a cortina de volta. Pobre coitada, antes suja e quente, agora suja, quente e cega. Em vida de janela...

09/12/2008

vou deixar meu coração gritar vou abrir a prisão da minha aparência e vou falar tudo deixar estampado pra quem quiser passar o que não mais se prende o que não mais encontra lugar para se guardar. será tudo dito e aos poucos, vou virando um nada sendo um nada então, recomeço 09/12/2008 na época, a folha era branca, a poesia falava. hoje, a folha é amarela o caderno é velho são outros tempos e a poesia continua falando.

outro tipo de matemática.

-O que você tem? Ele não sabia. Ele nunca aprendeu a fazer cálculos de palavras. Aquela pergunta poderia ter sido feita por qualquer voz, por qualquer pessoa que o encontrasse na rua gritando: eu tenho! eu tenho! -O que você tem, então? Não era qualquer pessoa. Ela se aproximou e ele foi capaz de ver suas rugas costuradas naquela pele que ele tanto já tinha visto sem maquiagem, quando acordava, olhava para o lado e a vi na sua forma mais pura. O que ele tinha? Ele tinha tudo. Seu coração estava que nem um copo a beira de transbordar. Uma batida na mesa, uma leve batida na mesa, faria a mesa tremer, o copo tremer...seu corpo todo tremia, tentando equilibrar a lágrima tímida que já tendia a escorregar pelo nariz. Seus pensamentos não cabiam mais na caixa de guardar pensamentos que ganhou na hora de nascer. Estava tudo lotado, no extremo limite. Tudo apertado. Tudo guardado demais. -O que você tem? Me diz. Sua voz estava presa. Sua vontade era de se partir ao meio e mostrá-la o turbilhão ...

uma velha caixa de baralho

Dizer que ela iria é uma forma sutil de di zer que ela já tinha ido. Não fez cena para decidir. Jogou umas roupas na bolsa. Jogou a bolsa no chão. Foi até o espelho e começou a se despir. Arrancou todo tipo de gosto que sua pele tinha, queimou todo tipo de agressão que seus ouvidos tinham ouvido e engoliu as palavras que eram para ter sido ditas. Só faltava esquecer aquele momento do espelho. Matar qualquer lembrança que a fizesse lembrar dos dias que passou naquele lugar. Não poderia mais, jamais, lembrar da sua cara refletida no espelho, do lixo sentimental que tirou do seu corpo e da decisão que tinha tomado. Lembrar a fazia pensar. E pensar demais sempre a fazia mudar de idéia. Bateu a porta com força, não para quebrá-la, mas para assustar os fantasmas daquele lugar que só tinha de branco as paredes. Virou a chave. Tirou a chave. Abriu a porta. Era como se facas a perfurassem a cada passada dada naquele caminho de volta. Foi até o espelho e o quebrou com um murro. Pedaços de uma mu...

muro do fim do mundo

Dulce tirou seu corpo ainda lento de sono e foi ver o sol. Não, Dulce sempre preferiu um contato mais íntimo. O sol é tão tímido que usa o que tem de mais vistoso para impedir que curiosos o encarem de frente. Dulce não queria ter seus olhos de curiosa queimados pela fúria de um estrela em chamas. Dulce preferia andar sobre o sol, encostar nas paredes onde o sol fazia suas sombras, sentir o sol deixar sua cabeça quente. Descalça, sentiu a quentura dos grãos de areia do terreno fazer cócegas nos seus pés. Foi andando, chutando pedrinhas e pulando sobre formigueiros, que mais pareciam buracos cheios de vírgulas. O fim do quintal era para Dulce como o fim do mundo. Nos dias que aparentemente não aconteciam nada, Dulce se aventurava pelo quintal até o fim do mundo. O chão quente a fazia ficar levantando os pés num ritmo que só aumentava. Dulce corria, atravessava os gigantes obstáculos de tijolos que seu pai construía. Na verdade, não eram obstáculos, eram apenas tijolos amontoados. Mas,...

basta ir até a janela

É madrugada, e as ruas dormem. A cidade continua viva, pulsando. Basta ir até a janela e ver as luzes vibrando. Cada ponto de luz dança na velocidade do vento. O mesmo vento que passa pela sua janela e assanha os seus cabelos. Há dias que parece que a noite morreu. Não há brisa, nem tempestade. Não há nuvens. Lua? A lua não põe nem o brilho em dias de noite morta. Não há barulho. Não há pessoas. Até que um cachorro uiva. Uma homem grita. Um carro buzina. E a noite ressucita. O silêncio é quebrado, as janelas se acendem e uma pessoa aparece na esquina. Não, não foi nada. Foi só um susto. No mais íntimo poço da noite, os sussuros da respiração , os gemidos dos corpos em atrito e as agonias da pele em dor são o que há de mais vivo. É madrugada, e as ruas dormem. As pessoas dormem. A cidade continua viva, pulsando. Basta ir até a janela e ver que a noite já está indo embora.