segunda-feira, 8 de abril de 2013

há de se ter um jeito


Fico sozinha na tentativa de esvaziar a mente, busco leituras que acalmam e palavras que abraçam o meu silêncio e orientam. Faço isso com frequência, como uma forma de preencher os vazios que vão surgindo pelos dias. E isso basta, na maioria da vezes. Em outros casos, uma angústia devoradora toma de conta e sai se enlaçando por dentro e dá em choro, em nervoso, em insônia. Um choro também silencioso, sem alarme, que deixa a cara vermelha, o nariz inchado e uma respiração ofegante. Mas passa. Há de passar. Vai embora da mesma forma que surge e não deixa lembranças. E é difícil compartilhar. É difícil pelo fato de não ser fácil fazer alguém acreditar que não se sabe o real, direto e sem dúvidas motivo de tanto desespero contido, tanto ânimo roubado, de tanto choro descontrolado. 
Um abraço apertado, alguém que espere o chore passar e um pacote de lenço. Uma amiga que entrega tudo  na mão de deus, segura a minha mão e diz amém com tanta certeza, que tal expressão de espiritualidade se transforma num botão de seguir em frente. Um quarto gelado, um filme bobinho e um sono sem despertador.  Uma praia, uma água e a mente solta no vento vagando até achar um rumo. Um pouco de paciência, uma respiração lenta e um caderninho pra escrever. 
Há sempre de se ter um jeito. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

irrelevância relativa


 Assumir pra mim, aqui, escrevendo só pra ter uma prova de tal confissão. Como uma vitrine, que expõe só uma parte, um promoção, uma novidade entre tanta coisa que tem lá dentro. Não leio jornais todos os dias, não assisto noticiários com tanta atenção e soube ontem quantos quilômetros meu carro faz com um litro de gasolina. Informação útil, item essencial na vida de um informado qualquer. Falo rápido, ando rápido, esqueço rápido, volto pra casa de manhã depois de uma noite em pé num salto e digo que ainda aguento mais. Tudo vitrine. 
A voz gruda na garganta sempre, toda vez, que falo um eu te amo em alto som. Gruda, sai devagar, rastejando até eu me ouvir falando. Infinitas vezes, ando contando os passos, colocando um pé na frente do outro, transferindo o peso de um pé para o outro, como se a vida fosse só isso, andar sem pressa. Lembro do tom de voz dos amigos, de um abraço que me doeu as costelas, da sensação que é sentir os pelos se arrepiando quando se ganha um cafuné demorado. Irrelevâncias. Completamente irrelevante. Passo horas sentada na varanda de madrugada vendo os luzes dos prédios, os canais das tv sendo mudados, um carro ultrapassando o sinal vermelho numa rua vazia. Reparo nos barulhos do corpo do outro, do coração batendo quando ponho a mão em cima. Gravo como ninguém o formato do olho das pessoas que gosto. Dou um jeito discreto de ficar observando a curva da sobrancelha, o formato dos cílios, já que encarar me deixa tímida e me fez achar que tem alguém entrando em mim sem nem ao menos encostar. Troco uma noite de festa na sexta, por um pijama bem velho e nem passa pela cabeça que poderia estar fazendo coisa melhor. 
E disso ninguém sabe. Ninguém pergunta sobre essas coisas em fichas de cadastros. Perguntam-me todo  diacomo eu estou, e não o que eu sou - ainda bem. Respondo que está bem e fica nisso. Estou bem, de verdade. O resto é irrelevância quando os detalhes são nos outros. É tudo um grande e íntimo silêncio. 
Silêncio confortável, relevante e inevitável.

quinta-feira, 14 de março de 2013

chiqueza



Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar. Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar, e não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar, e nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar. E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar. Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar, e cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar. E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou, e foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou. E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais, que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz.
Chico Buarque    

terça-feira, 12 de março de 2013


"Tem tédio do mundo - o que acho totalmente justificável, submersos nessa chatice crônica dos dias e das pessoas vazias - e demora pra achar ao menos uma amiga de verdade, um amigo gay que valha a pena, dê conselhos ponderados da cabeça masculina que deseja também homens, e mais: um cara decente que mereça nos ver caidinha de amor." Camila Paier 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

agonia


Teve uma noite que fez tanto calor, mas tanto, que não teve ventilador que desse jeito, nem ar-condicionado que aquietasse minha agonia. E quem me conhece sabe que quando tiro pra ter agonia de uma coisa,  não consigo ficar parada vendo aquilo me consumir, sem ao menos reclamar uma vez sequer, mesmo que não dê jeito. Era madrugada, sei lá que horas, estava sozinha e não tinha ninguém ao lado pra dizer agoniadamente: vou morrer de calor. Morrer, com orgulho de quem esquece o que a mãe diz pra nunca dizer que vai morrer de algo, de fome, de sede, de preguiça. Mas de calor é justificável, acredito. Levantei, tirei o pijama como se fosse o motivo e me joguei na água gelada. Literalmente, me joguei, sem nem antes fazer uma horinha, colocar primeiro a mão, depois o braço, depois um ombro, num ritual sem sucesso no qual a água não vai ficar menos gelada, mas mesmo assim, faço toda vez. Naquela noite, eu me joguei com cabelo e tudo. Fechei os olhos e mentalizei uma piscina vertical. E lá fiquei. Não era hora de sabonete pro corpo, sabonete íntimo, sabonete pro rosto e toda esses trecos que mulher inventa de usar pra ficar, na realidade, com mais de seis cheiros diferentes pelo corpo no fim e ainda colocar um perfume. Agonia de tanto cheiro, também tenho. Meu banheiro tem uma multidão de coisas que se usados tudo ao mesmo tempo, eu morreria de agonia. E cheirosa, muito. Então não uso, e nem tenho tanta paciência de sair fragmentando meu corpo em dez partes pra dez coisas diferentes. 

Dei como terminado o banho, vesti o pijama e voltei pra cama. Poderia ter aumentado a velocidade do ventilador, mas faz muito barulho e meu cabelo fica voando, fazendo irritantes cócegas no meu rosto  Velocidade 1, sempre. Poderia ter ligado o ar-condicionado, diminuído a temperatura e esperar o clima de outono europeu tomar de conta. Poderia abrir a janela! Mas tenho um histórico grande de insetos e bichos que entram por ela sem aviso e me enlouquecem de susto. Não tenho problema em ficar em local aberto sujeita a arrastões de abelhas e borboletas. Embora, ficar no meu quarto, um lugar fechado, no qual quase sempre estou sozinha, com a janela aberta me deixa, pra não fugir do tema do texto, agoniada sem limites. O problema não era só o calor, eu estava impaciente, inquieta, querendo de verdade descer e ficar na borda da piscina, invejando o sono tranquilo do porteiro numa cadeira provavelmente desconfortável. 

Quantas vezes, estive pela faculdade, antes de alguma aula, em alguma mesa com metade no sol, de calça jeans até, sentindo calor, mas bem. Sem reclamar. Amarro o cabelo num coque sem lei bem alto e resolvido o problema. Mas naquela noite, não teve jeito. Na verdade, chegou uma hora que depois do banho, o calor passou e nem lembrava mais dele. Tentava dormir desenrolada, mas me sinto desprotegida, é isso. Enrolava só uma perna, deixava os braços de fora, colocava o cabelo pra cima, o travesseiro molhado e nada. 

Liguei a tv e fui direto pro cartoon, disney channel, boomerang e coisas do tipo. Não importasse o que estivesse passando, não seria algo muito difícil. Assisti padrinhos mágicos, bob esponja, até popeye e quando vi tinha esquecido de mim. Esquecido das minhas agonias, da minhas chatices e estava preocupada de como o popeye ia resolver os problemas com o brutus. 

Calor passou, o sonho veio e dormi com a tv ligada. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

gente com gente

Tenho uma mania e tenho consciência disso e não deixo de ter, de cultivar pessoas. Elas surgem e de alguma forma se encaixam nas minhas rotinas desordenadas, ou se não se encaixam, dou um jeito de encaixá-las. É isso, tenho mania de dar um jeito nas coisas. E esse jeito, muitas vezes, é dado de qualquer jeito, precipitado, causador de impressões erradas que seriam evitadas se eu tivesse um pouco mais de paciência e deixasse as coisas se ajeitarem sozinhas. Mas não tenho tanta paciência assim pra esperar o prazer independente das coisas. Fico dando uma ajudinha e essa ajudinha se perde no papel de ajuda e vira mandante. Não que eu saia mandando no rumo das relações e deixando de muito palavra, não saio mandando nas pessoas. Sou indecisa pra muita coisa, pra não dizer quase tudo, mas em relação à relações , faço uma guerra com minhas interrogações, enfio cada uma num canto sem luz e tento, tento tão bem, que me faço acreditar que sei o que quero. Na prática constante disso, de fato passo a saber querer e a não querer sem grandes dúvidas. E relações são laços, que se cruzam por aí sem motivos, ou já fazem tantos nós motivados que viram cardaços que enlaçam nossas vidas. E como laços, se desfazem ao serem puxados, esticados e apertados. Laços que decoram, enfeitam, tornam bonito tanta coisa, que continuam sendo bonitas quando se desfazem, mas que enfim passam. Uma vida pra ser enlaçada, a mesma vida pra enlaçar por aí, até o dia da desfeita. E por mais frouxo que seja, coração fica apertado, nem que seja por uns dias, de um jeito discreto, que nem aquela amiga que reconhece sua cara melhor que qualquer ressonância desconfia que amor, por menor que seja, quando vai embora, doí. É desumano demais não guardar nadinha que seja de quem passa pela gente. O problema dos laços são os nós. E quanto mais cego, segundo uma história sem noção que diz que  o bendito amor não bastando suas complicações ainda é cego, mais desornado a coisa fica. Quanto mais amor, mais desorientado fica, mais desorientado deixa. E sendo assim, eu não tenho a capacidade suficiente e nem quero me tornar alguém melhor criando tal habilidade, de aguentar indecisão em relação a isso. Se a coisa não fica clara por si só, eu preciso, me dá um desespero não saber o que fazer. E não saber o que fazer, não significa entregar minha vida, minhas malas e meus problemas na porta de alguém assim de cara.  Não saber o que fazer é não saber se aquele abraço te conforta de verdade, se o prazer não é só um escape nervoso de satisfação. Nossa vida pesa e não é educado jogar tanto peso assim de cara, e muito menos quando se conhece. Então, relaxa e deixa isso de lado. Não importa agora e quando for reparar de fato, alguém conseguiu se equilibrar mesmo com um peso a mais e fica tudo certo. Gente precisa de  gente. Não há por que negar descarada constatação. Não tiro aqui o valor da família, dos amigos e do que mais tenha valor pra cada um no sentido de dar sentido à uma vida. Mas eu estou falando é de gente com gente, de afinidade no outro, de ter alguém deitado ao lado, de alguém que entenda, ou se não entenda que finja que entenda, que escute, que conforte sem que seja um esforço. Amigos fazem tudo isso e por serem amigos, os chamados folgados íntimos autorizados, fazem muito mais e ainda escutam a gente reclamando que sente falta de alguém e mesmo assim continuam por perto. É isso. Não me importo que as relações sejam laços sem nós, mas que ao menos sejam laços apertados, seguros ao menos no papel de existir. Se se desfazer, já estava previsto. Sendo claro, se acabar, acabou, passa daqui uns dias. Mas deixa uma marca, um presente, um cheiro de perfume, algumas manias e a lembrança de que um dia fez bem. Sem complicação. 

sábado, 29 de dezembro de 2012

ir além

Ir além até parece que é muito longe. Ir além lembra obstáculos, barreiras e portas trancadas. Ir além é uma expressão otimista. Dá esperança à quem não quer sair do lugar, à quem tem medo de sair do lugar, à quem não sabe aonde ir. Ir além é caminhada, é progresso, é avanço. Ir além dá preguiça. Ir além, ás vezes, precisa de uma passagem de avião. Sonhar é ir além e sonhar é caro. Dinheiro não compra sonhos, dinheiro compra decisões, mas sonhos são caros pelo fato de fazer com que não se saia do ponto de partida. E não sair do ponto a cada sonho faz com que se perca o tempo, o ponto de ida, a coragem. Ir além, de fato, é muito longe. Hoje, é sábado, e dá uma preguiça de fazer algo muito complicado. Meu ir além de hoje seria tomar um banho e trocar de roupa, ler meu livro em algum lugar aberto. Ir além, de hoje, também seria desligar o ventilador e abrir a janela, mas isso sempre me faz ter medo de que entre algum inseto, deixa assim. Ir além soa como palavras mágicas infantis. Além, Salém, bruxas de Salém. Ir além não é sair da zona de conforto, ir além é continuar no conforto e ter mais conforto mais. Sair de zonas é se aventurar, e eu só estou falando de ir além, bem ali, rapidinho. Ir além seria alguém bater na porta desse quarto pedindo pra entrar só pra conversar alguma bobagem sem importância. Eu abriria, mas teria que ser bobagem, conversar demais não é ir além é pensar muito e hoje é sábado. 
Ir além é ir. Só ir. Sei lá pra onde. Saber seria destino e não ir além. 
É isso.


Amém. 

domingo, 21 de outubro de 2012

virgindade


Sendo a rotina, os olhos dos nossos dias, tem dias que prefiro não enxergar. Como é comum perguntar-me sobre o que irei fazer e receber como resposta um sincero, direto e deliberado não sei. Faz uma hora, talvez, que fui até piscina e me joguei na água gelada. Agora, estou aqui com vontade de escrever. E assim, vou indo, realizando vontades. Deixando a cada dia de ser virgem de algo. É um bom jeito, pelo menos foi o melhor que encontrei até agora, de seguir em frente. Deixando de ser virgem de algo...tal como o sexo, deixar de ser virgem é quebrar barreiras, libertar hormônios, seguir em frente do que quer que seja. Hoje, já não sou mais virgem de ir pro cinema sozinha, de pular na piscina de roupa, de voltar pra casa andando de madrugada. De não dormir três noites seguidas, de viajar pra morar em um país sem saber a língua local, de ter medo de ser parada na alfândega por um policial gordinho que deve ter ido com minha cara. Não sou mais virgem de pintar o cabelo pela primeira vez usando o resto da tinta de uma amiga, de roubar maçã, de ficar perdida em uma cidade sem saber como voltar pra casa. Não sou mais virgem de esquecer uma coreografia no palco e improvisar tudo como se nada tivesse acontecendo. De ter uma parte do figurino abrindo também no meio do palco e sair, ajeitar e voltar como se fizesse parte da coreografia. Não sou mais virgem, de dormir na grama. Nem de gritar no meio da rua que não estava com frio, mesmo meus amigos insistindo que estava fazendo 5 graus. Até hoje não acredito neles. De assistir uma orquestra ao vivo e dizer que até hoje foi uma das melhores sensações da minha vida. Não sou mais virgem de pão com chocolate, nem café gelado, nem de torta de maçã. Não sou mais virgem de vodka, nem de tequila, nem de cerveja preta. Não sou mais virgem de chorar até cansar e dormir porque um namoro acabou, de chorar vendo filme de amorzinho, de chorar em público e disfarçar com óculos escuro. Já não sou mais virgem de deitar num banco de uma praça só pra ver o movimento da rua. Não sou mais de virgem de pegar o ônibus 4 do outro lado da rua só pra ir até o final da linha porque não tinha o que fazer. E por causa disso, não sou mais virgem de conversar com o motorista, um senhor croata,por mímicas e até não saber o que foi conversado de fato. E por causa disso, fiquei amiga do motorista e recebia um guten morgen, brasilien sempre que pegava o ônibus. Não sou mais virgem de pegar o trem errado e só perceber isso muito tempo depois. Nem mais virgem de faltar aula pra dormir.
Não ser mais virgem das coisas. Não ser mais virgem dos lugares. Não ser mais virgem das comidas.
É disso que falo pra mim todo os dias.
E você aí achando que só se podia ser virgem de pessoas.

-isabellecristhinne