Assumir e escrever só pra ter uma prova de tais confissões. Como uma vitrine, muitas vezes, só exponho uma parte, uma promoção, uma novidade entre tanta coisa que tem aqui dentro. Não leio jornais todos os dias, não assisto noticiários com tanta atenção e sem me perguntarem o que está acontecendo agora, meu bem, sinto muito por não sentir nenhuma angústia em nada saber responder. Demoro para processar certas informações e, às vezes, do nada, tentando dirigir no meio de engarrafamento qualquer, entendo algo que alguém me disse dias atrás e, em segundos, um trilhão de conexões mentais são feitas e as coisas ganham um novo sentido. Falo rápido, ando rápido, esqueço rápido, volto pra casa de manhã depois de uma noite em pé num salto e digo que ainda aguento mais. Aguento nada, tiro o salto antes mesmo de entrar no elevador e o jogo no pé da porta antes mesmo de entrar em casa, e dizendo, como quem bebe demais e acorda sem lembrar de nada: nunca mais uso isso. 
Infinitas vezes, ando contando os passos, colocando um pé na frente do outro, transferindo o peso entre os pés, como se a vida fosse só isso, andar sem pressa. Lembro do tom de voz dos amigos, de um abraço que me doeu as costelas, da sensação que é sentir os pelos se arrepiando quando se ganha um cafuné demorado. Irrelevâncias. Completamente irrelevante. Passo horas para me levantar, só sentindo a sensação de não ter o que fazer. Reparo nos barulhos do corpo do outro, do coração batendo quando ponho a mão em cima. Gravo como ninguém o formato do olho das pessoas que gosto. Dou um jeito discreto de ficar observando a curva da sobrancelha, o formato dos cílios, já que encarar me deixa completamente sem jeito algum e me fez achar que tem alguém entrando em mim sem nem ao menos encostar.  
Nunca gostei de falar e ficar prevendo o que não aconteceu ainda, vai que os anjos do céu escutam e dizem amém e o provável torna-se fato consumado. Se vier com força, deixa socar. Se deixar um vazio, aproveita o espaço. Se desequilibrar, mude de posição. Somos todos tão complexos, por mais que tentemos nos descrever em 100 caracteres. Perguntam-me todo dia como estou, e não o que eu sou - ainda bem. Respondo que está bem e fica nisso. Estou bem, de verdade. O resto é irrelevância quando os detalhes são nos outros. 

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