irrelevância


 Assumindo e escrevendo pra ter uma prova de tal confissão. Como uma vitrine, que expõe só uma parte, um promoção, uma novidade entre tanta coisa que tem lá dentro. Não leio jornais todos os dias, não assisto noticiários com tanta atenção e soube ontem quantos quilômetros meu carro faz com um litro de gasolina. Informação útil, item essencial na vida de um informado qualquer. Falo rápido, ando rápido, esqueço rápido, volto pra casa de manhã depois de uma noite em pé num salto e digo que ainda aguento mais. Tudo vitrine. 
A voz gruda na garganta sempre, toda vez, que falo um eu te amo em alto som. Gruda, sai devagar, rastejando até eu me ouvir falando. Infinitas vezes, ando contando os passos, colocando um pé na frente do outro, transferindo o peso de um pé para o outro, como se a vida fosse só isso, andar sem pressa. Lembro do tom de voz dos amigos, de um abraço que me doeu as costelas, da sensação que é sentir os pelos se arrepiando quando se ganha um cafuné demorado. Irrelevâncias. Completamente irrelevante. Passo horas sentada na varanda de madrugada vendo os luzes dos prédios, os canais das tv sendo mudados, um carro ultrapassando o sinal vermelho numa rua vazia. Reparo nos barulhos do corpo do outro, do coração batendo quando ponho a mão em cima. Gravo como ninguém o formato do olho das pessoas que gosto. Dou um jeito discreto de ficar observando a curva da sobrancelha, o formato dos cílios, já que encarar me deixa tímida e me fez achar que tem alguém entrando em mim sem nem ao menos encostar. Troco uma noite de festa na sexta, por um pijama bem velho e nem passa pela cabeça que poderia estar fazendo coisa melhor. 
E disso ninguém sabe. Ninguém pergunta sobre essas coisas em fichas de cadastros. Perguntam-me todo  diacomo eu estou, e não o que eu sou - ainda bem. Respondo que está bem e fica nisso. Estou bem, de verdade. O resto é irrelevância quando os detalhes são nos outros. É tudo um grande e íntimo silêncio. 
Silêncio confortável, relevante e inevitável.

Comentários

Isabelle,

Eu também sempre fiz isto: "Troco uma noite de festa na sexta, por um pijama bem velho e nem passa pela cabeça que poderia estar fazendo coisa melhor. ".

Eu sempre me identifiquei contigo, desde aqueles contos à semelhança de Verissimo que eu lhe dizia que tu estavas a escrever, lembra? Eu apreciava muito, pois eu gosto de humor, e Verissimo é meu autor preferido.

Tu és de uma relevante beleza global, geral e totalitária, genericamente falando no conjunto da obra nos quesitos arte final, e do básico ao acabamento, valeu?

;*
Marcos
Aline disse…
O silêncio em certos momentos é essencial!

^^

Beijos
Sara disse…
Engraçado como a vida de cada ser-humano é repleta de preciosidades, não é? E é sempre bom colocá-las como algo relevante na nossa própria...
Muito bom, o texto! :)
Stefany Prata disse…
Menina, tu escreve bem demais! Inspirador!

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