Assim como a arquitetura precisa do vazio, a matemática precisa do zero, a dança precisa da pausa. Não digo do momento de descanso; daqueles minutos pra beber alguma coisa e jogar uma água no rosto. Isso também é necessário, não só para o corpo, mas para a mente e para o coração. Dançar é esforço físico, isso todos sabem. É um incrível exercício mental, já que numa pequena combinação de oito tempos é preciso pensar em milhares de correções, no joelho esticado, no pé esticado, nas costelas fechadas, nos braços leves, nas direções da cabeça, nas terminações, na quinta posição, na ligação dos movimentos... Dançar também é um silencioso conflito de sentimentos. Sentimentos difíceis de compartilhar, pelo fato de crescerem sem alarme dentro de nós. Um ensaio que não sai bem, vários ensaios que não ocorrem bem. Um dia ruim. O cansaço. A vontade de chorar. O choro. Os dias de preguiça. A preguiça de se alongar. A vontade de desistir; de desligar o som na tomada de uma vez, pegar as coisa...
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São todos iguais. Não, não estou falando de namorados ciumentos , de mães que reclamam das nossas bagunças , de avós que ainda acham que você é um bebê. Estou falando de quem dança. Então, deixa eu me corrigir. Bailarinos são todos iguais. Hoje, quando vi, ela estava chorando. Mais cedo, tinha reclamado de um dor no pé, mas continuou. Fez a aula, fez pirueta, disfarçou a dor, ouviu palavras desagra dáveis de quem não sabia o que está acontecendo, mas continuou. É o verbo que define nós bailarinos: continuar. Uma dor aparece, continuamos. O médico manda parar por algumas, mas queremos é continuar. Enfim, paramos, mas depois continuamos. Temporadas difíceis surgem e continuamos. Algumas coreografias não se encaixam no nosso corpo, reclamamos, reclamamos, mas o jeito é continuar continuando. Já no palco, esquecemos um passo e damos um jeito de continuar. Continuar tentando. Continuar descobrindo. Continuar repetindo. E foi quando eu a vi chorando, em ...
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Coração, perdi a paciência de esperar as coisas passaram. A saudade passar, ele passar, de você perder essa porcaria de mania de ficar se amolecendo pelos cantos. Eu tou com uma vontade imensa de matar você, de te cortar em pedacinhos e tocar fogo. Como eu faço? Tudo bem. Te dou mais uma chance para ficar bem logo. Ouviu, né? LOGO.
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Às vezes, solto uma risada tão alta que até assusta quem está próximo. Não sei prever quando isso vai acontecer. Simplesmente, acontece. Ultimamente, estou assim. Sem tensão alguma. Não tem hora para rir, nem para chorar. Dá vontade de rir, eu rio. Dá vontade de chorar, eu choro. Dá vontade de andar, eu vou andar. Mínimas coisas me dão de presente intensas alegrias. Falo de coisas mesmo. Ruas, prédios, o tempo que muda de repente, pessoas falando uma língua que não entendo, falar português na rua sem se preocupar com quem está ouvindo, andar sem pressa, aproveitar uma noite de sol. Uma noite de sol. Um batalhão de pessoas pode fazer muito bem. A presença de uma pessoa poderia fazer um bem maior ainda. Ficar comigo mesmo também tem me deixado bem. Apenas ir e continuar indo e indo e indo e indo. Não acredito que nossas vidas possuam obstáculos. Prefiro acreditar que existem caminhos que segui e não deram certo, caminhos que segui e que continuo seguindo e aqueles que seguirei para ver...
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Dessa forma, vai estar sempre faltando algo. Não dá pra ter o coração de um lado e a cabeça de outro. É preciso caminhar com tudo isso bem ao lado. Assim como se cobre com um pano os móveis da poeira, dá-se um jeito de cobrir aquela parte da nossa alma que se machuca a cada perda. Cobre, guarda, protege, guarda debaixo da cama. Não, não se desfaz, não joga fora, não fere. Se as coisas um dia voltarem, tudo vai estar lá, quieto. Se não, o esquecimento fica responsável por jogar fora. Só assim, aquele peso, que a gente sente quando tenta seguir em frente, desaparece. -isabellec.
Noite clara
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Hoje, é um dos dias inesperados da minha vida. Nunca me imaginei sentada no chão de uma praça de uma pequena cidade europeia, numa sexta-feira, vendo o claro do dia se arrastar lentamente pelo tempo antes de ir embora. Já são quase oito da noite e ainda é possível ver riscos de sol pelo céu. Bem, aqui estou em St. Pöelten. Um frio calmo, nada familiar para uma cearense, vai enrolando meu corpo como um lençol gelado de uma cama ainda não mexida. Nessa noite ainda clara de fim de outono, me encontro sozinha e sem nada para fazer além do que estar aqui, escrevendo à beira de uma sorveteria italiana, de um café central e de uma arquitetura claramente barroca e religiosa. E do meu lugar, em uma das almofadas no chão da praça, assisto um desfile ao ar livre, sem regras, ordens e tamanhos. São crianças embaladas com suas roupinhas de frio, as mesas dos cafés servidas com taças de cerveja e senhoras devidamente protegidas do vento gelado. Não, ninguém está comprando n...