Noite clara


Hoje, é um dos dias inesperados da minha vida. Nunca me imaginei sentada no chão de uma praça de uma pequena cidade europeia, numa sexta-feira, vendo o claro do dia se arrastar lentamente pelo tempo antes de ir embora. Já são quase oito da noite e ainda é possível ver riscos de sol pelo céu.
Bem, aqui estou em St. Pöelten. Um frio calmo, nada familiar para uma cearense, vai enrolando meu corpo como um lençol gelado de uma cama ainda não mexida. Nessa noite ainda clara de fim de outono, me encontro sozinha e sem nada para fazer além do que estar aqui, escrevendo à beira de uma sorveteria italiana, de um café central e de uma arquitetura claramente barroca e religiosa.
E do meu lugar, em uma das almofadas no chão da praça, assisto um desfile ao ar livre, sem regras, ordens e tamanhos. São crianças embaladas com suas roupinhas de frio, as mesas dos cafés servidas com taças de cerveja e senhoras devidamente protegidas do vento gelado. Não, ninguém está comprando nada além do que sorvetes, cafés e cervejas. As lojas fecham cedo, deixando as ruas calmas para a noite que chega sem pressa. As vitrines iluminadas destacam os melhores vestidos, as promoções irresistíveis, bugigangas para turistas e brinquedos e sapatos e bolsas e óculos e computadores e produtos naturais e jóias e relógios e meias e lenços e cachicóis e toucas para natação e remédios e frutas e verduras...nossa, quanta coisa! Felizmente, fica tudo pro outro dia, sem exceções. Aqui, a noite não está à venda. Ela é objeto de contemplação, de uso pessoal e íntimo. Ela pode ser divertida, romântica e cheia de comidas. Pode ser também diferente, fria ou aconchegante. Dá para andar a pé, conhecer novos caminhos ou andar pelos lugares de todo dia. É bom para tomar um café, um chocolate quente e um sorvete. Você pode estar sozinho, acompanhado ou achar alguém para observar pelo caminho. Pode-se tudo, menos comprar.
A noite faz um boa ação àqueles que insistem em perder seus dias dentro de lojas por causa de uma roupa mais barata.

Comentários

Ontem à noite, eu estava contemplativo admirando a pia da cozinha.
Ontem eu admirava a tela do pc fazendo trabalho pra faculdade rs.
Adorei o texto.



bju

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