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agonia

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Teve uma noite que fez tanto calor, mas tanto, que não teve ventilador que desse jeito, nem ar-condicionado que aquietasse minha agonia. E quem me conhece sabe que quando tiro pra ter agonia de uma coisa,  não consigo ficar parada vendo aquilo me consumir, sem ao menos reclamar uma vez sequer, mesmo que não dê jeito. Era madrugada, sei lá que horas, estava sozinha e não tinha ninguém ao lado pra dizer agoniadamente: vou morrer de calor. Morrer, com orgulho de quem esquece o que a mãe diz pra nunca dizer que vai morrer de algo, de fome, de sede, de preguiça. Mas de calor é justificável, acredito. Levantei, tirei o pijama como se fosse o motivo e me joguei na água gelada. Literalmente, me joguei, sem nem antes fazer uma horinha, colocar primeiro a mão, depois o braço, depois um ombro, num ritual sem sucesso no qual a água não vai ficar menos gelada, mas mesmo assim, faço toda vez. Naquela noite, eu me joguei com cabelo e tudo. Fechei os olhos e mentalizei uma piscina vertical. E...

gente com gente

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Tenho uma mania e tenho consciência disso e não deixo de ter, de cultivar pessoas. Elas surgem e de alguma forma se encaixam nas minhas rotinas desordenadas, ou se não se encaixam, dou um jeito de encaixá-las. É isso, tenho mania de dar um jeito nas coisas. E esse jeito, muitas vezes, é dado de qualquer jeito, precipitado, causador de impressões erradas que seriam evitadas se eu tivesse um pouco mais de paciência e deixasse as coisas se ajeitarem sozinhas. Mas não tenho tanta paciência assim pra esperar o prazer independente das coisas. Fico dando uma ajudinha e essa ajudinha se perde no papel de ajuda e vira mandante. Não que eu saia mandando no rumo das relações e deixando de muito palavra, não saio mandando nas pessoas. Sou indecisa pra muita coisa, pra não dizer quase tudo, mas em relação à relações , faço uma guerra com minhas interrogações, enfio cada uma num canto sem luz e tento, tento tão bem, que me faço acreditar que sei o que quero. Na prática constante disso, de fato ...

ir além

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Ir além até parece que é muito longe. Ir além lembra obstáculos, barreiras e portas trancadas. Ir além é uma expressão otimista. Dá esperança à quem não quer sair do lugar, à quem tem medo de sair do lugar, à quem não sabe aonde ir. Ir além é caminhada, é progresso, é avanço. Ir além dá preguiça. Ir além, ás vezes, precisa de uma passagem de avião. Sonhar é ir além e sonhar é caro. Dinheiro não compra sonhos, dinheiro compra decisões, mas sonhos são caros pelo fato de fazer com que não se saia do ponto de partida. E não sair do ponto a cada sonho faz com que se perca o tempo, o ponto de ida, a coragem. Ir além, de fato, é muito longe. Hoje, é sábado, e dá uma preguiça de fazer algo muito complicado. Meu ir além de hoje seria tomar um banho e trocar de roupa, ler meu livro em algum lugar aberto. Ir além, de hoje, também seria desligar o ventilador e abrir a janela, mas isso sempre me faz ter medo de que entre algum inseto, deixa assim. Ir além soa como palavras mágicas infantis. Além, ...

virgindade

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Sendo a rotina, os olhos dos nossos dias, tem dias que prefiro não enxergar. Como é comum perguntar-me sobre o que irei fazer e receber como resposta um sincero, direto e deliberado não sei. Faz uma hora, talvez, que fui até piscina e me joguei na água gelada. Agora, estou aqui com vontade de escrever. E assim, vou indo, realizando vontades. Deixando a cada dia de ser virgem de algo. É um bom jeito, pelo menos foi o melhor que encontrei até agora, de seguir em frente. Deixando de ser virgem de algo...tal como o sexo, deixar de ser virgem é quebrar barreiras, libertar hormônios, seguir em frente do que quer que seja. Hoje, já não sou mais virgem de ir pro cinema sozinha, de pular na piscina de roupa, de voltar pra casa andando de madrugada. De não dormir três noites seguidas, de viajar pra morar em um país sem saber a língua local, de ter medo de ser parada na alfândega por um policial gordinho que deve ter ido com minha cara. Não sou mais virgem de pintar o cabelo pela primeira vez...
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talvez um dia

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Talvez um dia, fiquemos juntos. Um dia de manhã qualquer, acordar, passar a mão nos teus cabelos e te falar sem pressa que já está na hora de acordar. Te ver indo embora, enquanto estou pensando no que comer com minha cara de preguiça de todos os dias. Procurar a chave do carro pela casa enquanto vejo o quanto nossas coisas já se bagunçaram.  Talvez um dia, acorde um pouco mais cedo e saia pra tomar um chocolate lendo um jornal antes de abrir algum projeto. Café é coisa pra se tomar de madrugada. E nesse mesmo jornal, ver como será o dia e acreditar que uma folha de jornal possa me dizer se vai chover ou não, se o maré está alta, se a lua está cheia ou se vai nascer hoje.  Talvez um dia, me torne mais irresponsável. Que não me falte disposição para escolher o caminho mais longo, só pelo fato de ser maior do que imagino, onde o fim não seja um objetivo e que esteja logo na minha frente. Que seja difícil, longo, que chova muita e que inunde as ruas, que me permita t...

Era onda, num vai distinto da volta.

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Frio. E não era o ar que passeava pelo corredor da casa do lado da sombra. Vinha de dentro. Um frio interno que saia petrificando cada orgão de seu corpo. E logo, logo após, estilhaçavam-se. Sentia o sangue correr, o coração bater, o barriga gritar. Gritos silenciosos, batidas sem som, corridas em círculos. Era tudo dela. Sua vida guardava sentimentos e seu corpo era uma central de meteriologia.  O nervosismo congelava no instante que chegava. E arrepiava. Como um fluído invisível que vai tomando de conta, subindo, envolvendo, revirando o que está em paz. Sente sua liga segurar seus cabelos perto do pescoço, numa guerra sem fim para que ao menos a moldura do rosto permaneça intacta. Um cenário para aquela tempestade que troveja e trava músculo por músculo. Era frio. Não, era nervosismo. Nervo sismando. Era clima, era chuva, era mar revolto. Era onda, num vai distinto da volta. Era chegada. Era deixar partir. E uma hora se vai.