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arquivo aleatório

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pensar no que se está pensando

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Abro a porta de vidro E dou de cara com uma parede cheia de janelas Seguro a porta e fico observando pessoas se mexendo dentro das janelas. Alguém dobra um pedaço de pano, outro alguém passeia pelo corredor Então, lembro que alguém do outro lado pode estar olhando para a minha varanda e dizendo: -uma menina segurando uma porta de vidro. Procuro esse alguém nas janelas iluminadas e nada. Procuro nas janelas escuras algum vulto, alguma sombra, algum contorno de gente fitando a minha janela. Não, não tem ninguém. Não deve ser interessante ficar olhando para alguém segurarando uma porta de vidro. Poderia eu dançar, tirar a roupa, gritar, chamar aquela mulher que está assistindo tv. Mas não. Eu fui até a varanda pra receber um pouco de vento, ver o movimento da rua antes de dormir. Seguro a porta para não bater e começo a pensar no que estou pensando. Quando se pensa no que está pensando pensa-se que está se pensando em nada. É verdade. Testa. Agora, estou pensando que est...

180

O velocímetro foca a visão. 180 km/h leva o resto do corpo. A 180, o que está fora das janelas, perde a forma estática. A 180, sente-se o mesmo frio na barriga que sente-se quando o avião está para decolar. A 180, perde-se a noção de perto. Tudo passa. Tudo já passou. Na avidez da pressa, a ignorância do que foi deixado pra trás. É questão de escolha. O retrovisor é uma máquina fotográfica sem filme. Registra tudo a 180, em tamanho reduzido e congelando por segundos a última imagem. Mas sem filme. As coisas não tem passado a 180.  Foram vultos. A 180, árvores são linhas paralelas, luzes são linhas de fogo e a vida... A vida é o que está para vir Quando se está com muita pressa, deixa-se coisas para trás. E nunca se sabe que coisas foram essas.

ruídos

Acordo sem saber que horas são. Há dias que pouco importa o que os ponteiros mostram. Em dias assim, a rotina é embaralhada, a sequência é perdida e apenas se sabe o que foi feito. Saber o que vai acontecer é o mesmo que tentar acertar a carta que está bem no meio do baralho. A janela me revela um céu nublado. Diz-me sem detalhes o que aconteceu pela rua enquanto estava vagando pelos sonhos de olhos fechados e mente aberta, bem aberta. Uma mulher caminha sozinha com uma sacola na mão, sem pressa de chegar aonde quer chegar. Ou, então, a mulher não tem onde chegar. Anda apenas por andar. É difícil imaginar uma coisa sem o seu destino final.Por mais incerto que seja, sempre imagina-se um fim. Trágico ou não. É como se a chegada fosse sempre obrigatória. É como se as coisas se convergissem para um ponto final e esse ponto final fosse sempre o objetivo . Tudo treme. As coisas mudam de lugar. Rachuduras são fecundadas ameaçando derrubar toda uma estrutura. Desvios. Uma informação. Não se ...

Restos do Carnaval

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"Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojo0s de serpentina e confete. Um ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas" (Clarice Lispector - Felicidade Clandestina) --- Sentada na escada de cimento batido, ficava observando as crianças correndo pela rua. Em dias de carnaval, quase não havia trânsito de carros nas pequenas ruas que cruzavam as grandes avenidas carnavalescas. Passava o ano pensando na fantasia que iria usar, uma fantasia que me deixasse bonita. Mamãe era costureira. Já estava acostumada a tropeç...

arquitetura

Há um ano, 2009, com meus 17 anos recém completados, eu estava em um banco em frente a sala que acolheria a primeira aula na faculdade. Sentia a ansiedade do primeiro dia do primeiro semestre secar a minha boca e corroer a minha imaginação. Não sabia o que esperar. Vi uns conhecidos passando no outro corredor, rindo, mostrando todo o conforto de ser veterano. Não quis supor que estivessem me olhando e gritando sem silêncio: quem é essa? Ora, quem é essa. Essa era eu, sentada desajeita e ansiosa, sem esboçar nenhum sorriso e achando que jornalismo seria a profissão da minha vida. Passei um ano, enlouquecendo com essa decisão sufocante e cheia de pressão. Cada dia que passava era um dia a menos de estudo e um dia mais próximo do maldito vestibular. Essa minha cabeça ativa me fazia sair do jornalismo para a engenharia civil em segundos. Sempre me achei capaz de tudo, no sentido de que se me dedicasse a aprender, eu aprenderia. Até que o dia não esperado, porém inevitável, da inscrição ...

O frio silencioso delira.

Quando nem o mínimo vestígio de sono domina o meu metabolismo selvagem, prefiro não ir me deitar. Forçar o sono é como comer de barriga cheia. É impor que o corpo se aquiete e que os pensamentos encontrem uma garagem vazia onde possam se acomodar. É ressuscitar lembranças enquanto se deixa envolver pelos panos mornos da cama. É buscar um jeito confortável de ficar, como se assim o sossego fosse fazer morada. São nessas noites de insônia que construo minhas esperanças. Na imaginação, o mundo vira de cabeça pra baixo sem deixar nada cair. Bebi um copo d'água encostada na pia da cozinha. Lembrei de quando era criança e tinha muito medo de ir até a cozinha. Crianças imaginam tanto que acabam vendo dragões em sombras de árvores. Serão mesmo árvores? Prefiro não duvidar de tudo que as crianças dizem. Por terem ainda a mente aberta, livre das infinitas restrições que assolam as idades dos adultos, conseguem ver além da primeira impressão. Na pressa de hoje, as pessoas dão uma olhadinha...