"Atirou-as para o Mundo."

Hoje, foi um bom dia. Não tive dor de cabeça - não que eu tenha dor de cabeça sempre, mas dor de cabeça é algo irritante e que azucrina muito minha vida quando aparece -, lavei o cabelo ontem, logo não precisei lavá-lo hoje - tenho infinita preguiça de lavar o cabelo - e ganhei cinco livros do Zé Assis - José Maria Machado de Assis, a intimidade me levou ao apelido.
.
Deixe-me contar a história dos livros.
Cheguei na casa de meus avós e encontrei meu avô sentado, encostado numa coluna e olhando pra tv que fica quase no teto. Falei meu velho e alto "E aí, vovô! Bate aqui!" e ele me respondeu um preguiçoso e arrastado "ooi". Fui caminhando casa adentro, passando pelos corredores na penumbra e uma montanha de sandálias na entrada, na verdade, seguindo os gritos e risadas familiares. Disse um "oi" geral, abraçei minha avó e disse "se aquieta, mulher" pra minha prima que não cansa. Coloquei minha bolsa na mesa, fiquei descalça e fui chamada pela minha vó.
.
-Bebel, olha o que a Tânia trouxe.
-Quem?
-A Tânia, minha amiga.
-Comida?!
Obs: conheço uma Tânia que faz comidas incrivéis e estava com muita fome!
-Não! Esses livros!
-Sério?! Caracas! Que irado! ...
.
Bem, são cinco livros do Machado, de capas douradas, da Editora Globo, com páginas amareladas, um nome na primeira página em branco e com cheiro de mofo. Inúmeras vezes, vi essa coleção em bibliotecas. Prateleiras inteiras com livros de capas douradas, verdadeiros tesouros literários. Por ser do Zé Assis, mas principalmente por terem jeito de tesouro velho e perdido. Me entende? Entre eles, Dom Casmurro, o único dos cinco que já li. Os outros quatros são inéditos para o oceano de palavras que é o meu sistema circulatório (uau, que coisa sem noção).
...para o oceano de palavras que é o minha alma (beeeeeem mais poético!).
.
Falar em poesia, comecei a ler hoje Poesia Sempre Portugal, número 26, ano 14/2007, da Biblioteca Nacional. São páginas de um livro cuja capa frágil suporta surpresas magníficas.
.
"Não sei se é só por prazer meu que rasgas
as folhas de papel de que sou feito"
-Antônio Franco Alexandre
.
"O telescópio não alcança sequer a tua alma;
Imprecisão exacta de um instrumento instintivos ou máquinas
Espontâneas.
Dois terços do amor estão na mulher, qualquer
Que seja o casal. As evidências abrem falência
Em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam
Ciências viris. Indispensáveis, de facto:
ciências meigas já existem em número
Excessivo. Monumentos que ocupam
Quilômetros quadrados são explicados por uma equação de
Dois centímetros. Repara: a engenharia é a invenção que engordou
As equações matemáticas. Atirou-as para o Mundo."
-Gonçalo M. Tavares (Sobre o Mundo)
.
Livros pra mim são mais que livros, são companhias. É, sempre que vou sair de casa, coloco um livro na bolsa, mesmo sabendo que não vou lê-lo. O que me conforta é saber que, se a conversa ficar chata, se o tédio aparecer, se o mundo pirar, eu posso me encostar em algum lugar e ler alguma coisa. Hoje, por exemplo, sai com o livro de poesia na mão e um sobre a Idade Média escondido na minha bolsa verde Não li página alguma, sequer encostei nele, mas estava lá para consumar o hábito de ter amigos por perto, mesmo que mudos, quietos e cheios de segredidinhos.
É isso. O sono me assola, agora.
Algo 'tortorante'
Beijo torrto!
Comentários
enfim... encontrei uma pessoa compatível. Faço o mesmo com os livros. A presença deles me conforta.
xeru na alma.
beijkas
Rir aqui contigo chegando em casa e falando com seu avô. KKKKKKKKK
E ele: 'Oi'
Só!
Raiai...
BEIJOS TORTOS
rs
Bjão!
O texto está engraçado, e o final é surpreendente.
Beijiiinhos