confissão de uma confissão

Devia ter meus doze anos. O catecismo já estava chegando ao fim. Faltava alguns ensaios, no meu caso que cantei na missa da comunhão (pelo fato de eu ter cantado, não significa que minha voz é suficiente agradável; nesse dia, as pessoas estavam emocionadas, vendo seus filhos, netos, sobrinhos, vizinhos sendo abençoados, vencendo uma fase religiosa da vida; então, o que nós fizessemos seria fofo e exageradamente lindo, mesmo não sendo). Já sabíamos folhear a bíblia; já tinhamos aprendido tudo que é de oração; mas faltava a coisa que menos esperava, a confissão.
Teria que enfrentá-la de qualquer forma, não tinha para onde fugir, então cuidei de imaginar aquela situação. No meu juízo, eu ia chegar na igreja e, quando chegasse a minha vez, iria para aquelas caixinhas de madeira na qual fica o padre de um lado, um barreira furadinha no meio e a pecadora do outro. Se fosse assim, menos mal. No entanto, nem tudo é como a gente pensa. O dia chegou. Uns vinte pecadores mirins estavam espalhados pelos bancos da igreja esperando para revelar tudo de ruim que tinha feito na vida até aquele momento. Quando alguém era chamado, ia até uma sala e entrava. Melhor ainda, a caixinha de madeira ficava dentro de uma sala. Minha vez chegou. Um tremedeira tomou conta dos meus ossos; minha boca ficou seca, acho que até deu dor de barriga. O caminho até aquela santa sala parecia enorme e eu ia rastejando, adiando o máximo possível aquilo. A porta estava aberta; quando pus os dois pés lá dentro, a senhora fechou a única entrada que dava acesso ao mundo. Meus olhos correram a sala e não viram nenhuma caixinha de madeira! O padre estava sentado atrás de uma mesa, rindo e dizendo: pode sentar aqui. Como assim, pode sentar aqui? Eu vou falar sobre as coisas que eu aprontei assim, sentada numa cadeira, com os braços apoiados numa mesa, para um homem que eu só via uma vez por semana? Eu sei que ele era o padre, era simpático, os sermões dele não eram complicados, mas enfim! Calada eu entrei, calada eu fiquei. Dei um sorriso sem graça, tímido e envergonhado. Como eu iria começar? Ele iria me perguntar: o que me conta de ruim? o que você andou fazendo? Não sei o que ele perguntou, só sei que, antes de falar qualquer coisa, fiquei olhando para o teto, com as mãos cruzadas em cima das pernas, rezando para que aquilo acabasse. Deus me perdoe, mas o fato de não ter a caixa de madeira com uma divisão do meio me traumatizou. Doze anos da minha vida foram resumidos em seis pecados, no máximo. Naquela hora, analisei o que tinha feito nesses anos e nada era suficientemente interessante para ser contado lá. Por exemplo, quando eu quebrei o jarro de vidro da minha avó pela manhã, aproveitei o resto da tarde, por que sabia que quando descobrissem, seria uma criança morta! Minha avó descobriu e disse que estava tudo bem, que era só um jarro e não ia contar para minha mãe. Era segredo nosso. Eu não podia contar meu segredo com minha avó para o padre! Era segredo. Não contei. Enfim, terminou. Me despedi do padre simpático e ele disse: até próxima. Quando encontrei minha turma, um bombardeio de perguntas me atingiu; queriam saber o que eu tinha tido; teve uns que disse que falou todos os pecados da vida, uns 35.
Pelo menos fui sincera; não sai inventando pecado pro padre, pensando que se contasse logo, já estaria perdoado! Foram somente seis, mas foram seis sinceros depoimentos de uma pessoa de doze anos.
Comentários
Seus textos são sempre leves e interessantes, eu adoro vir aqui.
bjs!
:)
beijinhos
Cmg foi exatamente igual. Não teve casinha d madeira. Mas eu falei. Olhando pro chao, mas falei. Foram mtos. Acho q nem falei todos, devo ter falado mta coisa desnecessaria. Mas eu tava nervoso e desembestei a falar. kKk...
Pelo menos a penitencia foi pequena. E a sua?
Nos tempos de criança isso era quase um milagre!Significava uma surra a menos!
Beijo
A primeira vez que me confessei foi estranho, mas a outra fez ja foi desconfortavel. Primeiro pq eu não via fundamento naquilo, segundo pq eu num tirava peso nenhum das minhas costas apos ter saido da confissao..
Oo
era pra sair "leve" num era? Oo
Thiago Assis
www.thiagogaru.blogspot.com
Quando eu entrei na saleta onde o Padre me esperava (sim, eu também esperei por uma caixinha de madeira, um confessionário digno!), não consegui pensar em nenhum pecado. Qualquer implicância com algum colega me pareceu boba demasiadamente pra ser contada ali, no ato da confissão.
Então fiquei calada, e o Padre me perguntou se eu desejava contar alguma coisa. Eu disse que não conseguia pensar em nada e ele me deu a penitência. Eu ainda me sinto estranha por isso.
Uma confissão pela metade!
Um ótimo domingo pra vc.
Bjos.
To te acompanhando , passa no meu tb ...
Uma excelente semana .
Beijos :*
Devíamos reclamar pelos confissionários inutilizados!!
Eu amo vir aqui.
=P
Realmente você escreve de um jeito que prende agnt !
Ameiii o post e o novo layout do blog ! =DD
~Virei fã já !
Beijooos
(Lêe Oliveira)
^^