Domingo. Nenhum compromisso marcado. Sem aula, sem ensaio. Um dia neutro, que tomaria o jeito que eu quisesse. Ou não tomaria jeito nenhum, caso eu quisesse continuar dormindo. A único lugar que eu iria, sem pestanejar, reclamar ou inventar alguma desculpa, era para a casa de meus avós. Como a casa da vó faz falta. Chegar, passar a mão na careca do meu avô, dá um beijo da minha vó, receber abreços seguidos de puxões de cabelos das minhas primas, tirar o tênis, jogar a mochila em algum quarto, ir a cozinha sentar no chão e comer alguma coisa, deitar e dormir de farda o dia inteiro. Devido minha rotina louca, dias assim não estão sendo comuns. Ao invés disso, chego no colégio, durmo na mesa da biblioteca, ou no final de alguma aula atraente ou não, passo o dia de tênis, enfrento fila pra comer, escovo os dentes com não sei quantas meninas olhando e fazendo a mesma coisa. Enfim, dias como esses serão bons quando eu não os tiver mais, e narrar, dando grandes risadas para algum amigo ou então meus filhos, fatos únicos acontecidos pelos corredores do colégio, vigiada por fiscais, coordenadores e fofoqueiros. Hoje, eles são desconfortantes. Bons, mas desconfortantes.

Inconscientemente acordada, lembro que não tenho nada pra fazer, e volto a dormir. Minha mãe entra no quarto, com uma disposição viva e higiênica, pergunta-me por alguma coisa que eu espero ter respondido certo. Não me recordo. Apenas lembro que senti medo ao vê-la perto da mesa que comporta tudo que é de papel, livro, revistas, cartas, canetas, fotos essencias, ou não, de alguém que cansou de arrumar algo que não se arruma. Senti medo pelo fato de ela poder se atrever a tentar arrumar aquilo, ou tirar da minha vista bagunçada o td da aula de específica de terça. Se, para você, significar uma boa ação, saiba que para mim e meus papéis desarrumados é um crime! Um grande crime! Então, mamãe, como eu sei que lerá o torto amanhã, saiba do meu apelo: não mexa na minha mesa, não tire meus livros do lugar e não jogue nada no lixo, por mais que seja um papel de bombom, nele poderá estar escrito alguma anotação da aula de história.

Decido me levantar. Uma dor nas costas de tanto ficar deitada tomou conta dos meus músculos. Levantei-me e me batendo nas paredes e vendo tudo embaçado consigo chegar ao banheiro. Abro a torneira e a água, como um tapa gelado, tenta me acordar! Me larga preguiça permanente! Eu te quero para sempre, mas me larga um só instante! Ela atendeu meu pedido e se ausentou por algumas horas. No corredor, indo em direção à cozinha sinto cheiro da singular comida da minha mãe. E, já sabendo tudo o que está sendo feito, vou pra perto do fogão apenas conferir. O arroz da minha mãe só não é melhor que leite com nescau antes de sair atrasada para ir pro colégio. Uma felidade e um alívio tomou conta de mim. Pelo menos hoje, eu não precisei comer coisas feitas em cozinhas desconhecidas e com temperos diariamente iguais e enjoentos e quase sempre com muito sal. Comidas das panelas de casa (limpas com detergentes de limão) e quase sem sal. Melhor não existe. Ganha até das comidas da Martinha. Mas, infelizmente, não tem como ganhar da feijoada do meu avô. Desculpa, mãe. Por mania, coloquei apenas arroz no prato e fiquei lá quase chorando de satisfeita. Depois vieram os complementos. Comi que repeti. Depois, bateu um sono, e como ainda estava de pijama e a cama estava bagunçada, chamei minha preguiça nesse dia tão sem nada e fui descansar.
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-Pôr do sol de algum dia de carnaval de algum ano.

Comentários

Thaís A :) disse…
Que lindo texto :)
E casa da avó é sempre bom , deve fazer falta mesmo :~

E só uma coisa que me dixou curiosa, por que você não dá nome aos seus textos ? Hehe .

- ps.: Fui eu sim que escrevi aquele texto :D

Beijão :*
Noffa. Eu também estou numa correria danada. Faz tempo que eu não sei o que é não fazer nada, e qunado eu tento jogar tudo para o alto e me divertir as preocupaões ficam na cabeça. Droga. Vc está mesmo com o tempo curto e tarefas puxadas.
bozo. disse…
naada como um dia sem nenhum compromisso nessa nossa vida de pré-vestibulando. =D

beeeijo maluca.

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