E naquele chão quente, jazia um corpo...

Era quase uma da tarde. Ar quente, paredes quentes, água quente, corpos quentes. Ao término da aula, os rumos eram muitos. Paradas de ônibus cheias, gente andando rápido com mochilas monstruosamente pesadas nas costas, blusas molhadas de suor, cansaço estampado na cara de muitos, em plena segunda-feira. Fome, sono, trabalho, coisas para estudar, aquele filme imperdível da sessão da tarde. A correria tinha muitas explicações.
A calçada, o asfalto, esses sim deveriam estar realmente quentes. Sem descanso, o sol fazia seu trabalho diário. Andar descalço em uma hora dessas? Isso é quase impensável, ou então, em caso de extrema necessidade. Se, ao menos, caísse uma chuvinha...
Não veio água de canto algum, e no chão, duro, desconfortável, desregulado, jazia o corpo de uma mulher. Uma senhora já. Deitada na calçada, usando como travesseiro o batente de uma loja, usando as roupas do corpo como colchão, ela dormia, não sei, ou então, fugia daquela sua situação com os olhos fechados. O corpo, por muitos, era notado apenas como um obstáculo. Algo a se contornar para continuar a andança. Ela não se mexia, era indiferente com o que estava acontecendo ao seu redor. Não pedia esmolas, não falava, não gesticulava nada. Imóvel. O pano, pequeno, não lhe cobria por inteiro. Os pés, pretos de sujo, ressecados, nos mostrando o quanto já andara naquelas condições, vez por outra, era nocauteado por pés calçados, limpos, desatenciosos. Não lhe escapava nenhum som, nenhum sorriso. O total contraste de quem por ela passava.
Eu era um dos contrastes. Estava suada, com fome, cansada. Porém, sabia que tinha um chuveiro em casa, comida na mesa e uma cama confortável para dormir. Demorou segundos o encontro com o descaso, com a miséria, com um corpo aparentemente sem alma. Ossos, só ossos juntos dentro de uma pele seca. Segundos suficientes, para mostrar a qualquer um a quantidade de coisas desnecessárias, desumanas que cercam suas vidas. Que me cercam. Que cercam você.
Uma ajuda, algumas palavras, um prato de comida, um pouco do seu ocupado tempo já são suficientes para ressucitar uma alma perdida, desencontrada, sofrida. E, com isso, lhe dar um pouco de força e coragem para continuar vagando por aí, atrás de algo menos pior.
beijo torto.

Comentários

Emanuelle disse…
Eu tb me senti assim qnd vi aquela mulher hj...
Foi uma sensação estranha, outras vezes ela já esteve ali, mas hj passei com mais calma e observei e fiquei pensando nela...e qnd chego em casa pa fazer minha leitura diária do torto encontro um post falando sobre isso.
É estranho como a gente presta atenção e ateh se choca ou se emociona qnd ver assim e quase pisa, mas qnd ver de dentro do carro naum se comove tanto,neh?
Camilla disse…
Adorei o novo visual!! Mudou né, ou eu que fiquei maluquete?

Beijos!!
H.Riedel disse…
Essas pessoas são as que nos fazem ter consciência. Devemos agradecê-las.
E você escreve como ninguém, te amo. ;*
MARAVILHOSO flor, sem noção!
As vzs tudo o que uma pessoa precisa é de interesse, de palavras amigas, de apoio, nem que seja por um instante..
Ajudar e se importar com o proximo salva muitas vidas, e eu sei beem disso!
E flor, tem post novo lá, jah que tu falaste!
x))

beeijo
Avilla Filho disse…
Já disse algum poeta de alguns de meus livros cujo nome não me recordo:"somos feitos de carne, apesar do mundo exigir que sermos feitos de aço, duro e frio"
De fato, essa desumanização e individualismo exarcebados nos fazem, muitas vezes, nem perceber que aquele mendigo jogado ao léu, também é ser humano e tem( será que depois de tudo tem?)sentimentos, que sofre com a situação e vemos porque virtudes e principios humanos são cada dias mais marginalizados.

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