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há de se ter um jeito

Fico sozinha na tentativa de esvaziar a mente, busco leituras que acalmam e palavras que abraçam o meu silêncio e orientam. Faço isso com frequência, como uma forma de preencher os vazios que vão surgindo pelos dias. E isso basta, na maioria da vezes. Em outros casos, uma angústia devoradora toma de conta e sai se enlaçando por dentro e dá em choro, em nervoso, em insônia. Um choro também silencioso, sem alarme, que deixa a cara vermelha, o nariz inchado e uma respiração ofegante. Mas passa. Há de passar. Vai embora da mesma forma que surge e não deixa lembranças. E é difícil compartilhar. É difícil pelo fato de não ser fácil fazer alguém acreditar que não se sabe o real, direto e sem dúvidas motivo de tanto desespero contido, tanto ânimo roubado, de tanto choro descontrolado.  Um abraço apertado, alguém que espere o chore passar e um pacote de lenço. Uma amiga que entrega tudo  na mão de deus, segura a minha mão e diz amém com tanta certeza, que tal expressão de espiri...

irrelevância

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 Assumindo e escrevendo pra ter uma prova de tal confissão. Como uma vitrine, que expõe só uma parte, um promoção, uma novidade entre tanta coisa que tem lá dentro. Não leio jornais todos os dias, não assisto noticiários com tanta atenção e soube ontem quantos quilômetros meu carro faz com um litro de gasolina. Informação útil, item essencial na vida de um informado qualquer. Falo rápido, ando rápido, esqueço rápido, volto pra casa de manhã depois de uma noite em pé num salto e digo que ainda aguento mais. Tudo vitrine.  A voz gruda na garganta sempre, toda vez, que falo um eu te amo em alto som. Gruda, sai devagar, rastejando até eu me ouvir falando. Infinitas vezes, ando contando os passos, colocando um pé na frente do outro, transferindo o peso de um pé para o outro, como se a vida fosse só isso, andar sem pressa. Lembro do tom de voz dos amigos, de um abraço que me doeu as costelas, da sensação que é sentir os pelos se arrepiando quando se ganha um cafuné ...

e não maldisse a vida

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“ Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar. Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar, e não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar, e nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar. E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar. Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar, e cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar. E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou, e foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou. E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais, que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz. ” — Chico Buarque    
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"Tem tédio do mundo - o que acho totalmente justificável, submersos nessa chatice crônica dos dias e das pessoas vazias - e demora pra achar ao menos uma amiga de verdade, um amigo gay que valha a pena, dê conselhos ponderados da cabeça masculina que deseja também homens, e mais: um cara decente que mereça nos ver caidinha de amor." Camila Paier  

agonia

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Teve uma noite que fez tanto calor, mas tanto, que não teve ventilador que desse jeito, nem ar-condicionado que aquietasse minha agonia. E quem me conhece sabe que quando tiro pra ter agonia de uma coisa,  não consigo ficar parada vendo aquilo me consumir, sem ao menos reclamar uma vez sequer, mesmo que não dê jeito. Era madrugada, sei lá que horas, estava sozinha e não tinha ninguém ao lado pra dizer agoniadamente: vou morrer de calor. Morrer, com orgulho de quem esquece o que a mãe diz pra nunca dizer que vai morrer de algo, de fome, de sede, de preguiça. Mas de calor é justificável, acredito. Levantei, tirei o pijama como se fosse o motivo e me joguei na água gelada. Literalmente, me joguei, sem nem antes fazer uma horinha, colocar primeiro a mão, depois o braço, depois um ombro, num ritual sem sucesso no qual a água não vai ficar menos gelada, mas mesmo assim, faço toda vez. Naquela noite, eu me joguei com cabelo e tudo. Fechei os olhos e mentalizei uma piscina vertical. E...

gente com gente

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Tenho uma mania e tenho consciência disso e não deixo de ter, de cultivar pessoas. Elas surgem e de alguma forma se encaixam nas minhas rotinas desordenadas, ou se não se encaixam, dou um jeito de encaixá-las. É isso, tenho mania de dar um jeito nas coisas. E esse jeito, muitas vezes, é dado de qualquer jeito, precipitado, causador de impressões erradas que seriam evitadas se eu tivesse um pouco mais de paciência e deixasse as coisas se ajeitarem sozinhas. Mas não tenho tanta paciência assim pra esperar o prazer independente das coisas. Fico dando uma ajudinha e essa ajudinha se perde no papel de ajuda e vira mandante. Não que eu saia mandando no rumo das relações e deixando de muito palavra, não saio mandando nas pessoas. Sou indecisa pra muita coisa, pra não dizer quase tudo, mas em relação à relações , faço uma guerra com minhas interrogações, enfio cada uma num canto sem luz e tento, tento tão bem, que me faço acreditar que sei o que quero. Na prática constante disso, de fato ...

ir além

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Ir além até parece que é muito longe. Ir além lembra obstáculos, barreiras e portas trancadas. Ir além é uma expressão otimista. Dá esperança à quem não quer sair do lugar, à quem tem medo de sair do lugar, à quem não sabe aonde ir. Ir além é caminhada, é progresso, é avanço. Ir além dá preguiça. Ir além, ás vezes, precisa de uma passagem de avião. Sonhar é ir além e sonhar é caro. Dinheiro não compra sonhos, dinheiro compra decisões, mas sonhos são caros pelo fato de fazer com que não se saia do ponto de partida. E não sair do ponto a cada sonho faz com que se perca o tempo, o ponto de ida, a coragem. Ir além, de fato, é muito longe. Hoje, é sábado, e dá uma preguiça de fazer algo muito complicado. Meu ir além de hoje seria tomar um banho e trocar de roupa, ler meu livro em algum lugar aberto. Ir além, de hoje, também seria desligar o ventilador e abrir a janela, mas isso sempre me faz ter medo de que entre algum inseto, deixa assim. Ir além soa como palavras mágicas infantis. Além, ...